
Uma breve história de viagem. Minneapolis é a cidade gêmea de Saint Paul, no Minnesota. Foi onde os agentes da imigração de Trump mataram ontem a poeta Renee Nicole Good, de 37 anos, com três tiros na cabeça.
Conheci essas duas cidades em 1993. Fiquei uma semana em Saint Paul. Uma cidade fica ao lado da outra. Eu estava num grupo de cinco jornalistas brasileiros convidados pelo governo, como parte de um programa de intercâmbio que não existe mais. Clinton era o presidente.
Estávamos num hotel bem à beira do Mississipi e num sábado fomos a Minneapolis para conhecer o Mall of America, o maior shopping dos Estados Unidos, recém inaugurado.
Um guia que acompanhava o grupo durante toda a viagem de um mês nos alertou: se nos separarmos, nos perderemos aqui dentro. Para voltar para Saint Paul, peguem o ônibus 94. Nos perdemos.
Depois de conhecer quase tudo, durante umas três horas, fui para uma parada à espera do ônibus 94. Me lembro bem da parada dentro do shopping, do silêncio, da sensação de que só eu embarcaria naquele ônibus.
Fiquei um bom tempo e nada do 94. Decidi que pegaria qualquer ônibus e entrei no primeiro que passou. O motorista e eu. Mais ninguém. Queria ficar dando voltas por Minneapolis, sem saber para onde iria, e se me afastasse muito de Saint Paul pegaria outro ônibus de volta.
Seria minha grande aventura de ônibus, logo na chegada. E o ônibus andou, entrou no aeroporto, pegou só um passageiro, começou a serpentear pelas periferias de Minneapolis, foi costeando o Mississipi, passou por casarões de madeira que margeiam o rio, sempre costeando o rio, e eu sem saber para onde estava indo.
Às vezes ia para um lado, fazia uma meia lua na periferia, voltava, às vezes alguém entrava, quase ninguém descia, e eu ali, faceiro. Me sentia um turista infantil independente num ônibus com mais quatro ou cinco pessoas descobrindo um lugar que eu nunca imaginei conhecer naquele verão de 1993.
O ônibus andava, eu não prestava atenção sobre a direção tomada, e assim fui, quase assoviando, distraído, olhando aquela paisagem única.
Quando passei a prestar atenção, vi que o ônibus parecia estar entrando em Saint Paul, mas logo continuei distraído. E o ônibus entrou de fato na cidade. Eu havia chegado um dia antes e pensei: eureca, voltei para Saint Paul sem pegar o ônibus 94.
E o ônibus andou com suavidade, dobrou para a direita e a esquerda de esquinas de ruas quietas e quando vi eu estava circulando de novo à beira do Mississipi. E ali adiante avistei meu hotel. Pedi que o motorista parasse e desci. Desci na porta do hotel, como se tivesse desembarcado de um táxi.
Logo encontrei os outros colegas, que haviam embarcado no ônibus 94, e eu contei o que havia acontecido. Chegamos à mesma conclusão: um dia, sem pressa, não pegue o ônibus 94. Pegue um ônibus sem número, perca-se por alguns instantes, passeie sem rumo e volte para onde deve voltar.
Cenas fortes. Vídeo completo do momento que agente de imigração do governo Trump atira em uma cidadã americana em Mineápolis, no estado de Minnesota. Trump elogiou há pouco a ação do agente. Quer classificar a mulher como terrorista. Que país bizarro. https://t.co/VCXOzaKLm8
— GugaNoblat (@GugaNoblat) January 7, 2026
Me lembro muito bem de Saint Paul e suas passarelas fechadas que ligavam muitas ruas do centro, de um prédio a outro, igual a essa do Praia de Belas que atravessa a rua em Porto Alegre. Foi a primeira vez que vi aqueles túneis que protegem do frio espalhados por uma cidade.
Me lembro de detalhes de Minneapolis, a cidade de Prince, lembro do porre que um homem tomou num restaurante que parecia um saloon. Me lembro das suas camionetes picapes velhas e enferrujadas e de suas figuras de filme do Wim Wenders.
Me contavam que Minnesota era a terra dos Sioux e também de F. Scott Fitzgerald, Bob Dylan, Judy Garland. Que as pessoas congelavam no inverno. Me lembro do céu roxo à noite, e me diziam que ali estava a porta de entrada da aurora boreal.
Me impressionei quando percebi que as ruas do centro de Saint Paul, por onde ninguém andava, só carros, pareciam mais limpas. Porque não tinham postes nem fios de luz. Os poucos postes que restaram sustentavam vasos com flores.
A moça que os agentes da polícia de imigração fascista de Trump assassinaram, Renee Nicole Good, de 37 anos, andava por ali. Era mãe de três crianças. Renee Nicole apresentava-se nas redes sociais assim: mãe, poeta e alma livre.

Trump a definiu como uma agitadora profissional. Todos os jornais reforçam que ela era uma cidadã americana, para deixar claro que não era árabe ou africana ou asiática ou mexicana ou brasileira.
Era uma branca assassinada na mesma cidade em que um policial branco matou asfixiado o homem negro George Floyd em 25 de maio de 2020. Nicole era branca, mas perigosa por ser poeta e agitadora. Antes, era mãe.
Durante algum tempo, senti vontade de voltar a Minneapolis-Saint Paul no inverno para ver os lagos congelados, mas eram só divagações dentro daquele ônibus com um número qualquer. Hoje, não tenho vontade de voltar a lugar algum dos Estados Unidos.