
Ainda sobre a falsa controvérsia da situação dos jornalistas que tentam entrar na Venezuela. Vou encerrar minha participação com esse texto, até porque essa “polêmica” é uma mistura de desinformação com provocação.
Comecemos pelo começo. Repórteres dependem de vistos de entrada em países em guerra ou com conflitos internos armados? Sim, se forem sensatos. Se estiverem medindo os riscos que correm e forem obedientes às regras das empresas para as quais trabalham, não entram.
Mas jornalistas que se dedicam a entrar em zonas de guerra são insensatos. Se não fossem, não haveria cobertura alguma em guerra alguma ou em qualquer zona de conflito pesado.
A bravura no jornalismo e em qualquer atividade só existe com doses às vezes muito altas de insensatez. Assim funciona o jornalismo.
Vamos ao caso da Venezuela, atacada por Trump e com seu presidente sequestrado, e não importa aqui se ele é democrata ou ditador. Logo depois do ataque, o chavismo fez o previsível: fechou as fronteiras, que logo foram reabertas.
E estão abertas. O que o governo está fazendo — e com isso impedindo a entrada de jornalistas — é verificar os pedidos de acesso de profissionais da imprensa estrangeira, de qualquer parte. Os jornalistas pedem vistos de entrada como jornalistas.
A Venezuela se sente no direito de negar, pelo menos até agora. É ruim para o jornalismo e péssimo para quem depende de informações para saber o que acontece no país.
É uma decisão de imposição de poder de um país invadido, que teve seu presidente sequestrado. Sob o ponto de vista das liberdades, é um gesto autoritário. É o que a “democracia” israelense faz em Gaza, por se considerar dona de Gaza.

E aí ressurge a pergunta: sem vistos, os repórteres não podem fazer a cobertura em uma zona de conflito ou sob ameaça externa? A resposta é essa: claro que podem.
Mesmo que alguns tenham dito no meu perfil no Facebook que entrar sem visto em um país em guerra ou sob forte tensão seria burrice. E outros disseram que não há cobertura sem visto.
Claro que há. Entrar sem visto em áreas de conflito é muito mais um gesto de valentia do que de burrice. E é muito comum; é da natureza desse tipo de trabalho.
Vou falar de novo, com mais detalhes, sobre dois exemplos que conheço, de colegas de Zero Hora, entre muitos casos de profissionais de outros veículos.
O repórter Humberto Trezzi não pediu visto para entrar na Líbia em 2011, quando uma revolta interna se levantou contra Kadafi. Trezzi entrou duas vezes.
Mas não foi a um balcão na fronteira pedir a um funcionário de Kadafi: me dê uma autorização para cobrir essa guerra que vai derrubar seu líder.
Falei com Trezzi hoje para relembrar. Ele conta:
“Entrei duas vezes sem qualquer visto. Na primeira vez, pelo Egito, junto com um grupo de contrabandistas. Na segunda, pela Tunísia, com religiosos que iam se juntar aos guerrilheiros. Dormi numa madrassa (seminário muçulmano), no chão.”
Se fosse esperar por visto, Trezzi não entraria na Líbia e em muitos outros lugares em guerra onde esteve. Assim como em 2014 Luiz Antonio Araújo não pediu licença para ir até a fronteira da Turquia com a Síria, na região dominada pelo Estado Islâmico no entorno de Kobani.
Araújo conversou com militantes do Estado Islâmico. Mas não pediu visto a um funcionário dos guerrilheiros para chegar até ali. Não pediu licença. Não mandou um WhatsApp. Decidiu ir e foi.
Então, para resumir. Os jornalistas que esperam visto de entrada nas fronteiras do Brasil ou da Colômbia com a Venezuela fazem a coisa certa, pensando na possibilidade de que poderão obter a permissão para entrar a qualquer momento.
Mas poderão ter os vistos negados. E aí terão que fazer uma escolha, da qual já falei em texto de dias atrás. Entram de qualquer jeito, como pessoas comuns, ou desistem.
Porque, para que fique claro, as pessoas estão entrando e saindo pela fronteira do Brasil ou da Colômbia. Há o risco de alguém com documentos europeus, por exemplo, despertar a desconfiança da imigração e ter a entrada negada. É possível.
Tudo é possível. Em algumas guerras, é possível até que alguns jornalistas sobrevivam. Em Gaza, atacada pelo neonazismo de Netanyahu, essa chance é mínima.
Torço para que todos os jornalistas à espera de autorização para entrar na Venezuela consigam licença do governo e façam seu trabalho.
(Trezzi é autor de “Em terreno minado”, sobre coberturas em áreas de conflito, da Editora Geração Editorial. Araújo publicou “Binladenistão”, sobre a cobertura da guerra do Afeganistão, da Editora Iluminuras).