
Uma série de postagens praticamente simultâneas colocou influenciadores sob escrutínio após viralizarem críticas à liquidação do Banco Master no fim de dezembro. Apesar das diferenças no estilo de apresentação, todos os vídeos e textos partiram de argumentos semelhantes: questionamentos sobre a suposta “rapidez” da decisão do Banco Central, insinuações de revisão do processo e desconfiança em relação ao trabalho dos órgãos reguladores.
Nenhuma das publicações identificou o conteúdo como publicidade, e os criadores negam envolvimento conjunto. A maioria dos perfis nem sequer atua no universo financeiro.
Apenas Carol Dias e seu irmão André, do Irmãos Dias Podcast, têm histórico na área. Carol publicou em 9 de dezembro um vídeo dizendo que o Master havia “desmoronado” e alertando para riscos a “municípios e aposentadorias”.
No dia 29, entretanto, mudou o tom e passou a levantar dúvidas sobre o BC. Questionados pelo Estadão, André e Carol não comentaram. Os demais influenciadores citados produzem majoritariamente conteúdos de entretenimento, fofocas de celebridades e vídeos motivacionais.
@caroldias Processo do Banco Master: qual o motivo do sigilo? Alguém tá surpreso com essa decisão? Qual sua opinião sobre isso? #caroldias #bancomaster ♬ som original – Carol Dias
Entre eles está Paulo Cardoso, que se apresenta como hipnoterapeuta e neuropsicanalista. Em vídeo de 19 de dezembro, afirmou que “quando um órgão como o Tribunal de Contas da União (TCU) entra no caso, é porque tem coisa errada”. Em 6 de janeiro, ao reagir a uma matéria de Malu Gaspar, disse que “não recebeu nada”, negou ter assinado contrato “com banco nenhum” e declarou que suas opiniões são “100% livres”.
A linha do tempo das publicações revela o encadeamento das postagens.
Em 19 de dezembro, às 19h04, Firmino Cortada, que normalmente comenta casos de celebridades como Virgínia Fonseca e Carlinhos Maia, publicou vídeo dizendo que o BC deve ter “autonomia para trabalhar”, mas alinhado ao entendimento do TCU. Ele justificou o vídeo como “posicionamento pessoal e independente”.
No dia 26, Marcelo Rennó, especializado em Reels, publicou críticas à liquidação, classificando-a como “muito suspeita” e “estranha”. Depois da repercussão, também negou qualquer remuneração.
@firminocortadaneto Concorda ou sem corda? #TCU #bancocentral #bancomaster #danielvorcaro #banco ♬ som original – Firmino C
O volume de conteúdo aumentou com apoio de páginas de fofoca. Em 28 de dezembro, o perfil Babadeira publicou crítica à decisão com base em nota da Febraban.
No dia 29, Carol Dias voltou ao tema afirmando haver “um descompasso entre a rapidez da decisão e a demora na explicação”, o que gerou comentários de seguidores perguntando “quanto recebeu”. No mesmo dia, Rennó abordou novamente o caso.
O perfil Alfinetei, conhecido pelo uso de imagens geradas por IA, comparou a saída de Renato Gomes do BC a uma entrega de pizza. Já a página Diferentona afirmou em 6 de janeiro que a liquidação ocorreu “sem explicações claras”.
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A estrutura empresarial por trás desses perfis também chamou atenção. Segundo o Estadão, a Alfinetei integra uma rede com quase 40 milhões de seguidores administrada por João Guilherme Chagas Gabriel e Marcos Almeida de Lima, sócios de ao menos cinco empresas. Perfis como Babadeira também fazem parte do mesmo ecossistema e replicaram conteúdos similares.
A Febraban registrou um pico de 4.560 postagens em 27 de dezembro, caracterizando atividade incomum. Nos dias seguintes, o volume caiu para 132 publicações, apenas no X. A entidade afirmou monitorar menções ao setor bancário e analisa se o movimento configura ataque coordenado: “Identificou-se volume atípico de postagens com menções relativas à entidade e seus representantes”, informou em nota.