Trump: um poder sem limites? Por Kakay

Atualizado em 9 de janeiro de 2026 às 10:06
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução

O desenrolar dos fatos que vêm a público sobre a invasão a Caracas para sequestrar o ditador Maduro, então presidente da Venezuela, causa perplexidade e preocupação. É claro que apenas uma pequena parte do golpe foi divulgada.

Mas há um lado que não se pode ocultar: a operação, batizada de Resolução Absoluta, exigiu uma enorme e ostensiva movimentação de tropas, porta-aviões, submarinos, helicópteros, mais de 150 aviões, forças de elite como a Delta Force e a fanfarronice do estranho presidente dos EUA. Parece uma caricatura, mas é real e perigoso.

Cada vez mais aparecem detalhes dessa trama em que o sequestrador vaza parte do que ocorreu para demonstrar força e dar uma espécie de “exemplo” do que é capaz de fazer. E se espalham, como um rastilho de pólvora, especulações sobre quem foi aliciado para assegurar o êxito da operação. Numa ditadura de generais, a corrupção arraigada facilita muito a cooptação de pessoas que mudam de lado pelo poder e pelo dinheiro.

Esses vazamentos controlados parecem fazer parte do plano para mostrar o poder. E há um exibicionismo incontrolável por parte do grupo mais próximo do presidente Trump. Não podemos nos esquecer de que, nesse sequestro do presidente de um país soberano, com invasão armada no território venezuelano, o próprio Congresso dos EUA foi, ostensivamente, vítima.

A ação deveria ter sido aprovada pelo Congresso. A explicação da Casa Branca de que não poderia fazer a consulta ao Congresso por haver risco de vazamento é um acinte. Uma das várias manifestações que consolidam a ideia de que não há democracia nos EUA.

O poder é exercido sem limites. A Constituição é um detalhe a ser usado conforme a conveniência do apetite de poder do grupo de Trump. Todo poder exercido sem controle tende a afastar, cada vez mais, os mecanismos de contenção. É o que se percebe nesta quadra preocupante da sanha de dominação norte-americana.

O próprio argumento usado como desculpa para o sequestro — de que Maduro seria o líder de um grupo de narcotraficantes, o Cartel de Los Soles — já foi simplesmente deixado de lado. O Departamento de Justiça dos EUA reescreveu a acusação e recuou nesse ponto.

Depois do “sucesso” na invasão, tornou-se desnecessária qualquer justificativa. É a força pela força. Pelo poder. E é aí que o mundo deve colocar as barbas de molho. Sem necessidade de consultar o Congresso, sem qualquer controle democrático, há uma preocupação natural com os caminhos da prepotência de Trump.

Depois de assumir, vergonhosamente, mas com empáfia e orgulho, que o objetivo do sequestro foi o petróleo, o presidente Trump e seu entorno emitem diversos sinais sobre o que poderá vir a curto prazo.

Nicolás Maduro durante o sequestro realizado pelos EUA. Foto: Reprodução

De maneira direta e sem rodeios, o presidente norte-americano trouxe a Groenlândia outra vez ao centro da disputa geopolítica. A Dinamarca, que ainda detém a soberania sobre a Groenlândia, já foi avisada de que a ilha é prioridade de segurança nacional para os EUA.

Em comunicado oficial ousado, o governo Trump informou que está discutindo opções para “adquirir” a ilha e, expressamente, ameaça dizendo que “utilizar as forças armadas é sempre uma opção à disposição do comandante-chefe”. Não há mais disfarce nem pudor.

Além da localização estratégica da ilha, que abriga desde 1951 a Base Aérea de Thule — instalação militar dos EUA mais ao norte do planeta e fundamental para monitorar o espaço aéreo no Hemisfério Norte — há interesse econômico nas reservas de minerais críticos, alguns dominados pela China, o que desperta ainda mais o interesse norte-americano.

É importante ressaltar que, logo depois de sequestrar Nicolás Maduro, Trump ameaçou direta e claramente o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, afirmando que estudava outra ação militar, pois o “país está doente e é administrado por um homem doente”.

O que parece mera birra de um menino mimado torna-se intimidação à segurança de um país independente como a Colômbia, quando esse “menino mimado” é o presidente de uma potência como os EUA.

Por tudo isso, cresce a urgência de acompanhar os passos dos ultradireitistas brasileiros, ávidos por entregar o Brasil aos norte-americanos. Depois de derrotados nas urnas e na Justiça — inclusive com as prisões dos líderes da organização criminosa golpista — o que resta a esse grupo é tentar entregar o país em troca da volta ao poder ou, pelo menos, de uma tentativa de escapar da força do Judiciário.

Com a aproximação das eleições, é necessário estar atento. Esse grupo de entreguistas tentará colocar o Brasil na linha de interesses do governo norte-americano. Na realidade, já há evidências de que essa é uma estratégia em que os bolsonaristas estão investindo. Resta gritar o grito antifascista, originado na Guerra Civil Espanhola: “No pasarán!”.

Lembrando o velho Rui Barbosa: “A força do direito tem que superar o direito da força”.

Kakay
Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e escritor