
Segundo reportagem do jornal israelense Haaretz, a inteligência israelense usou vídeos de inteligência artificial durante o bombardeio da Força Aérea Israelense numa prisão iraniana para incitar protestos no Irã. Na mesma época, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã visitou Israel e foi ciceroneado por Gila Gamliel, então ministra de Inteligência de Israel. Ela hoje é ministra de Ciência e Tecnologia do gabinete de Netanyahu.
A maioria dos jornais israelenses seguiu a versão oficial do governo e considerou a visita como uma prova “de não haver animosidade entre Israel e Irã”. A animosidade seria apenas entre os governos, segundo Israel. Tel Aviv acusa Teerã de financiar grupos armados xiitas como o Hezbollah e o Hamas.
Dentro do Irã, a popularidade de Pahlevi está longe de ser uma unanimidade: com 65 anos, ele é filho de um ditador apoiado por EUA e Israel, cujo governo foi destronado pelos aiatolás islâmicos não apenas por seu apoio ao Ocidente. Pahlavi pai teve uma gestão marcada por corrupção, repressão política e tortura a adversários políticos.
Ao contrário do pai, Pahlavi filho tem uma retórica marcada por discursos de paz. Numa coletiva em Israel, quando questionado sobre como o povo iraniano poderia “sacudir” o regime dos aiatolás, num inglês impecável, ele repetiu o discurso feito há décadas: “Mandela, Walesa e outros líderes trouxeram mudanças pela não-violência e sem interferência externa”.
Entretanto, ele fez uma pausa, ergueu um dedo e adicionou algo importante: “Mas o elemento crucial é que nenhum desses movimentos teria tido sucesso sem algum tipo de apoio internacional”, disse ele, justificando sua visita a Israel.
Pahlavi acentuou o fato de, “conforme dados obtidos em redes sociais”, as opiniões sobre sua visita a um arqui-inimigo do Irã “eram positivas”. “Não acredite no que eu digo, vá olhar o Twitter, o Instagram e outras redes sociais”, disse o herdeiro da monarquia iraniana.
Tal resposta é quase irônica após a investigação do Haaretz e do Citizen Lab. Descobriu-se que uma campanha de influência digital em larga escala em persa estava em andamento, operada a partir de Israel e financiada por uma entidade privada que recebe apoio do governo israelense.
Campanha digital
O intuito é promover a imagem pública de Pahlavi e amplificar os apelos pela restauração da monarquia. A campanha se baseia em “avatares”, personas online falsas que se fazem passar por cidadãos iranianos nas redes sociais. Eles foram descobertos pela primeira vez por pesquisadores de mídias sociais em Israel e no exterior.
Fontes ouvidas pelo Haaretz dizem que a campanha pela desestabilização do governo iraniano e a promoção de Pahlavi fazem parte de um esforço ainda maior na opinião pública mundial, com posts em alemão e inglês. A ideia é atingir também os expatriados iranianos – esses sim, mais favoráveis ao retorno da monarquia persa.
Vários falantes nativos de persa foram recrutados para o projeto, dizem cinco fontes ouvidas pelo Haaretz. Três das fontes disseram ter testemunhado a rede promovendo mensagens pró-Pahlavi. A campanha incluiu contas falsas em plataformas como X e Instagram e utilizou ferramentas de inteligência artificial para gerar conteúdo. Também houve esforços para amplificar as postagens da ministra Gamliel, aliada de Pahlavi em Israel.
Como a campanha foi financiada com dinheiro do governo Netanyahu (e por tabela, do contribuinte israelense), muitos envolvidos na operação ficaram melindrados em promover a imagem da ministra de Ciência e Tecnologia.
Na medida em que o jornal israelense avançou na apuração, eles foram procurados pelo laboratório canadense especializado em redes sociais. Inicialmente, parecia uma campanha para promover Gila Gamliel. Um tweet de 30 de junho de 2025 tem uma enigmática fala da ministra: “Uma Teerã livre em 2026”.
Apagado logo em seguida, o conteúdo foi repostado no X e teve 3,5 mil retweets, 14 mil likes e impressionantes 600 mil visualizações para um clipe de 21 segundos. Reforçar os laços com o filho do xá parecia ser o intuito daquele post. Mas a singela postagem acabaria por revelar uma teia de perfis falsos postando ameaças de Gamliel contra os aiatolás e elogiando o filho do ex-monarca. Vídeo:
בחזרה לעתיד …
بازگشت به آینده … pic.twitter.com/6tGB7z939U— גילה גמליאל – Gila Gamliel (@GilaGamliel) June 30, 2025
Outra campanha pró-Pahlavi foi descoberta pelo Citizen Lab, desta vez no Instagram. Esta campanha incluiu dezenas de contas falsas que divulgavam conteúdo gerado por inteligência artificial. Esses indícios mostram muitos seguidores da ministra como iranianos expatriados ou contas registradas no Irã. Veja o post feito no Instagram:
Ver essa foto no Instagram
Também há indícios de sincronização entre o conteúdo da campanha online e as ações militares israelenses durante a guerra de 12 dias com o Irã. Isso inclui informações de que essas mídias sociais tinham conhecimento prévio do ataque de Israel à infame prisão iraniana de Evin e até mesmo pareciam ter preparado conteúdo com antecedência.
Um pesquisador de mídias sociais que investigou a rede previamente exposta pelo Haaretz identificou centenas de usuários do X suspeitos de serem falsos, promovendo Pahlavi, compartilhando suas mensagens e usando hashtags como #KingRezaPahlavi. Essas publicações foram encontradas ao lado de postagens que promoviam Gamliel. Nem todos os avatares suspeitos, que somam quase mil, faziam parte da mesma campanha.
Muitas dessas contas foram abertas em 2022, no auge dos chamados protestos contra o hijab no Irã. Um grupo de mais de 100 contas aliadas, também parte da campanha, foi aberto simultaneamente em junho deste ano, durante os 12 dias de guerra aérea com o Irã. Esta não parece ser a única campanha operando sobre esse tema a partir de Israel. Veja na integra:
سلام ایران🤝
آزادی آزادی آزادی!!!✌️
نماد سرکوب منفجر شد🫡#اوین#MIGA #MIGAwithPahlavi pic.twitter.com/F34fkrZeXR
— تلآویو تهران (@TelAviv_Tehran) June 23, 2025