Sakamoto: Previdência revela epidemia de burnout; vacina passa por fim da jornada 6×1

Atualizado em 11 de janeiro de 2026 às 14:05
Manifestantes se reúnem no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, pelo fim da escala 6×1. Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Afastamentos por burnout se multiplicaram por seis em quatro anos. Dados da Previdência Social mostram que registros de auxílio após os trabalhadores fritarem devido ao trabalho saltaram de 823, em 2021, para 4.880 em 2024. E os números do governo, trazidos por reportagem de Cristiane Gercina e Júlia Galvão, hoje na Folha de S.Paulo, certamente estão subnotificados.

Dados de 2025 ainda não estão fechados, mas só nos seis primeiros anos, os registros foram de quase 3,5 mil auxílios. Depressão, ansiedade, desespero, medo, prostração, dores físicas.

Neste momento, alguns dos que leem este texto podem estar pensando “Noosssssssa, redução de jornada é frescura! Trabalho 20 horas por dia, aguento um chefe que me assedia e ainda tenho tempo para família, amigos e futebol”. Para esses, sugiro que pare a leitura e vá lá fora brincar. Gente grande está tendo uma conversa séria, ok?

O Brasil vive uma epidemia de burnout, com trabalhadores estafados, fisicamente degradados e psicologicamente desgastados. Com isso, muitos não conseguem recuperar as suas forças no único dia de descanso ao qual tem direito. Que dirá ter vida social, espaço para a família, tempo para formação pessoal ou simplesmente pensar em qualquer coisa que não seja o serviço.

Essa epidemia é uma das razões pelas quais se faz urgente a discussão sobre o fim da jornada de seis dias de trabalho e apenas um de descanso (sem redução salarial, claro), que está em curso no país e no parlamento. Isso não vai resolver todo o problema, que passa também por repensar a estrutura do trabalho no Brasil e garantir proteções previstas na lei, mas é um dos remédios que precisam ser ministrados.

A Proposta de Emenda à Constituição que trata do tema, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), avançou na Comissão de Constituição de Justiça do Senado, no mês passado, mas ainda tem um caminho longo pela frente. O governo Lula, contudo, está otimista que passe em 2026. Afinal, é ano eleitoral e parlamentares não vão querer bater de frente com um tema que interessa a esmagadora maioria dos trabalhadores e trabalhadoras.

Pesquisa Genial/Quaest, de dezembro, aponta que o fim da escala 6×1 também reúne amplo respaldo: 72% apoiam a medida, contra 24% que se posicionam de forma contrária. A margem de erro é de dois pontos.

Trabalhadores protestam contra a escala 6×1. Foto: Divulgação

Erra quem pensa que, quando o empregador tem mais tempo do trabalhador à disposição, a geração de riqueza será maior ou melhor. A falta de descanso reduz significativamente a produtividade, fazendo com que, não raro, as horas a mais sejam um freio e não um acelerador para as necessidades da empresa, do indivíduo e da sociedade. Cai a qualidade de vida, mas também a do serviço prestado e da mercadoria produzida.

O debate da 6×1, puxado pelo vereador eleito Rick Azevedo (PSOL-RJ) e pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), atualizou a discussão sobre a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais no Lula 2, encabeçada pelas centrais sindicais, que, na prática, reduziria para cinco dias por semana, considerando que o teto diário é de oito horas.

Há quem defenda que cada categoria chegue à sua redução de jornada através de negociações coletivas. Quando o sindicato é forte, temos bons resultados. Mas e quando não for, o que sugerimos aos trabalhadores, ainda mais depois da Reforma Trabalhista, que enfraqueceu essas instituições? Cada um por si e Deus acima de todos?

Por isso a negociação tem limites e o artigo 7º da Constituição Federal, que guarda os direitos trabalhistas, precisa incorporar a redução de jornada. A última ocorreu há 36 anos, na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais.

A chiadeira de uma parte do empresariado, da política e da imprensa é gigantesca, claro, mas é um debate inadiável, pois a economia deve servir à qualidade de vida, não o contrário.

Mudanças não aconteceriam imediatamente, mas seriam paulatinas, para dar tempo aos setores afetados se adaptarem à realidade. Mas eles precisam se adaptar à realidade.

Como já disse aqui antes, vale lembrar, contudo, que tudo isso ajuda uma parte da equação, mas uma multidão de trabalhadores precarizados, de vendedores ambulantes a entregadores e motoristas de aplicativos, ainda irão à rua de domingo a domingo, em jornadas que ultrapassam as 70 horas semanais, acreditando que o tal artigo 7º da Constituição não diz respeito a eles.

A discussão sobre a qualidade de vida não ficará completa sem garantir a esse exército, que cresce a cada dia, remuneração justa e um mínimo de proteção.