
O interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela Groenlândia voltou ao centro do debate internacional e tem sido frequentemente associado aos minerais críticos existentes no território. Embora a ilha possua vastas reservas ainda pouco exploradas, o custo, a logística e o contexto geopolítico indicam que o tema mineral pode funcionar mais como discurso do que como motivação central.
Dados da Agência Internacional de Energia mostram que minerais críticos são considerados indispensáveis para tecnologias como turbinas eólicas, veículos elétricos e redes de energia. Um levantamento de 2023 apontou que 25 dos 34 minerais classificados como estratégicos pela Comissão Europeia estão presentes na Groenlândia, incluindo grandes reservas de terras raras. Estima-se que o território concentre entre 36 e 42 milhões de toneladas de óxidos desses minerais, ficando atrás apenas da China em volume conhecido.
Pesquisadores em segurança e clima avaliam que, mesmo com o ceticismo pessoal de Trump em relação às mudanças climáticas, seus assessores consideram os efeitos do aquecimento global sobre o Ártico ao formular estratégias. O degelo acelera transformações econômicas e estratégicas, tornando mais viáveis projetos antes inviáveis.
O degelo cada vez mais rápido passou a liberar rotas marítimas que antes eram impraticáveis. A ilha, território autônomo vinculado à Dinamarca, vem aquecendo em um ritmo muito acima da média mundial, com a camada de gelo em retração contínua há décadas, o que abriu o acesso a regiões antes protegidas por gelo permanente.
À medida que o gelo marinho recua, a circulação de navios na região aumenta de forma contínua. Em termos logísticos, as rotas polares passam a encurtar de maneira significativa o tempo de deslocamento entre grandes mercados globais, alterando o equilíbrio estratégico do comércio e da segurança internacional.
A dependência norte-americana de importações reforça o discurso estratégico. Os Estados Unidos são totalmente dependentes do exterior para ao menos 12 minerais considerados essenciais para a economia e a segurança nacional. Atualmente, mais de 90% do processamento global de terras raras ocorre na China, o que faz da Groenlândia, ao menos no papel, uma alternativa atraente para reduzir essa vulnerabilidade.
Desde o primeiro mandato, Trump tem buscado ampliar a produção mineral doméstica, assinando decretos para acelerar licenças, usar a Lei de Produção de Defesa e priorizar áreas federais para mineração.
Apesar disso, analistas destacam que a exploração mineral na Groenlândia enfrenta obstáculos significativos. O território carece de infraestrutura para mineração em larga escala, o clima severo limita a atividade a poucos meses por ano e os custos são considerados bilionários. Além disso, segundo especialistas que atuam na região, a Groenlândia já é aberta a investimentos estrangeiros e não exigiria uma aquisição territorial para que empresas americanas explorassem seus recursos. Soma-se a isso o fato de muitos minerais críticos operarem com preços baixos, o que enfraquece o argumento econômico.
O debate ambiental também pesa. A expansão da mineração, inclusive em águas profundas, tem gerado críticas de organizações ambientais, que alertam para impactos irreversíveis nos ecossistemas. Estudos recentes indicam que a transição para uma economia de baixo carbono pode ser viabilizada com menor extração, a partir de reciclagem, economia circular e novas tecnologias. Ainda assim, o governo Trump avançou com medidas para acelerar a mineração submarina, inclusive à margem de negociações internacionais conduzidas pela ONU.
Para parte dos analistas, o foco excessivo nos minerais funciona como uma cortina de fumaça. Eles apontam que o interesse real pode estar ligado à ampliação da influência territorial e estratégica dos Estados Unidos no Ártico, região cada vez mais relevante à medida que o aquecimento global abre novas rotas marítimas e reduz barreiras à exploração de recursos. Nesse cenário, a Groenlândia ganha importância não apenas econômica, mas também militar e geopolítica.