Em meio a protestos no Irã, golpista Elon Musk ataca o regime e troca bandeira no X

Atualizado em 11 de janeiro de 2026 às 19:59
Protestos Irã. Imagem: reprodução

Com os protestos se intensificando no Irã, o homem mais rico do mundo decidiu intervir no debate público. No dia 4 de janeiro, Elon Musk, bilionário e dono da plataforma X, respondeu a uma publicação do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, que dizia “não vamos ceder ao inimigo”. Musk escreveu em persa, insinuando que Khamenei estava delirando.

Dias depois, no sábado, a plataforma X alterou o emoji da bandeira iraniana. Saiu o símbolo usado desde a Revolução Islâmica de 1979 e entrou a bandeira anterior, com o leão e o sol. Esse estandarte tem sido exibido por parte dos manifestantes dentro e fora do Irã como forma de rejeição ao regime atual.

As ações de Musk receberam apoio de críticos do governo em Teerã. Analistas, porém, divergem sobre o impacto real dessas iniciativas sobre os acontecimentos no país.

O que está por trás dos protestos

As manifestações começaram em 28 de dezembro, em meio à inflação elevada e à deterioração das condições de vida. Desde então, espalharam-se por mais de cem cidades e, segundo relatos, já atingem todas as províncias do país.

Muitos protestos pedem o fim do domínio dos aiatolás, que assumiram o poder após a revolução de 1979, junto com a Guarda Revolucionária Islâmica. Ali Khamenei governa desde 1989. Embora já tenha atravessado outras ondas de contestação — como os protestos “Mulher, Vida, Liberdade”, em 2022 — analistas avaliam que as manifestações atuais estão entre os maiores desafios de seu governo.

Para Barbara Slavin, pesquisadora do Stimson Center, a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear em 2018, seguida do retorno das sanções e do fracasso em firmar um novo pacto, prejudicou gravemente a economia iraniana e ampliou a corrupção, beneficiando grupos restritos. À Al Jazeera, ela cita os golpes sofridos por aliados regionais do Irã desde outubro de 2023 e ataques de Israel e dos EUA no ano passado como fatores que fragilizam ainda mais o regime.

O governo iraniano impôs um bloqueio quase total à internet desde quinta-feira, embora vídeos de confrontos entre manifestantes mascarados e forças de segurança continuem circulando. A agência semioficial Tasnim informou que 109 agentes de segurança teriam morrido. Grupos de oposição afirmam que o número é maior e inclui dezenas de civis. Esses dados não puderam ser verificados de forma independente.

Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou intervir caso as autoridades iranianas matem mais manifestantes.

A entrada de Musk no debate

Elon Musk deixou no fim de maio o Departamento de Eficiência Governamental dos EUA. Sua passagem pela função foi alvo de críticas, assim como a compra do X e posições públicas que geraram forte rejeição nos últimos anos.

Elon Musk, dono do X. Foto: reprodução

Embora hoje esteja mais concentrado em seus negócios privados, Musk segue comentando temas políticos. Durante os protestos de 2022 e na chamada Guerra dos 12 Dias, em 2025, ele forneceu acesso à internet no Irã por meio do serviço de satélites Starlink. Há relatos de que o governo iraniano esteja interferindo no sinal durante os protestos atuais.

Mortazavi afirma que o bloqueio da internet é usado para dificultar a organização dos protestos e a circulação de informações. Mesmo quando o acesso retorna, o atraso enfraquece a mobilização.

Nesse cenário, A Starlink pode ajudar, mas especialistas avaliam que a resposta de Musk a Khamenei e a troca da bandeira no X não decorrem de um compromisso político com o Irã. Para Slavin, o objetivo principal seria atrair mais atenção e tráfego para a plataforma.

A utilidade das intervenções

A mudança da bandeira ocorreu durante o apagão da internet, o que impediu muitos manifestantes de vê-la. Alguns perfis de autoridades iranianas, no entanto, chegaram a exibir temporariamente a bandeira antiga para usuários fora do país.

O historiador Reza H. Akbari compara o gesto a uma tomada simbólica de um prédio, com a substituição da bandeira. Ele avalia que esse tipo de ação pode gerar entusiasmo momentâneo, mas seus efeitos no médio e longo prazo são incertos.

Slavin ressalta que o que ocorre fora do Irã tem pouca influência direta sobre a luta interna. Segundo ela, o confronto principal acontece dentro do país, não entre a diáspora ou observadores externos, que podem apoiar e divulgar informações, mas não definir os rumos do processo.

Uma bandeira controversa

Akbari lembra que a bandeira anterior a 1979 sempre foi um símbolo disputado, associado tanto à oposição interna quanto a grupos no exterior. Muitas vezes, ela está ligada a setores que defendem a restauração da monarquia e o retorno do xá, derrubado em 1979.

Durante os protestos recentes, Reza Pahlavi, filho do último xá, convocou manifestações e ocupações de cidades. Embora alguns defendam seu retorno, analistas apontam que ele não teria condições de liderar o país caso o regime islâmico caísse após quase cinco décadas no poder.
Slavin crê que o Irã tem pessoas capazes de assumir o governo, mas muitas estão presas. Já Pahlavi vive confortavelmente nos Estados Unidos, o que dificulta vê-lo como alguém capaz de promover mudanças concretas.