STF no alvo: depois de Moraes com o Master, Folha tenta ligar Toffoli a um caso que não o investiga

Atualizado em 11 de janeiro de 2026 às 21:17

A matéria da Folha sobre uma suposta denúncia contra Toffoli não se sustenta como apuração consistente. É uma reedição, agora com documentos, da nota de Malu Gaspar sobre Alexandre de Moraes e o Master. O alvo é o mesmo: o STF. O texto aposta em associações forçadas, linguagem sugestiva e omissões relevantes para criar suspeita onde o próprio jornal admite que não existe investigação.

O eixo da reportagem é uma ligação artificial. De acordo com o jornal, “duas empresas ligadas a parentes do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Banco Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela Folha”.

Mesmo afirmando que o tal fundo Arleen não é alvo de apuração, a matéria tenta aproximá-lo de Daniel Vorcaro por meio de uma cadeia indireta de investimentos. O critério é tão amplo que, se levado a sério, tornaria qualquer investidor “conectado” a qualquer escândalo financeiro apenas por ter aplicações em fundos com participações cruzadas.

A expressão “teia de investimentos” revela o truque. O termo não existe tecnicamente no mercado financeiro. Não descreve irregularidade, nem mecanismo específico. É uma escolha retórica para sugerir algo nebuloso. O nome correto é investimento cruzado entre fundos, prática comum, legal e usada justamente para diversificação de risco. A troca de termos não é inocente: serve para criar suspeita.

Há também uma confusão deliberada de responsabilidade. As empresas citadas pertencem a um irmão e a um primo do ministro, não a ele. Do ponto de vista jurídico, isso basta para afastar qualquer imputação direta. A matéria ignora essa distinção e aposta na proximidade familiar como elemento insinuante, sem apontar qualquer ato, decisão ou benefício atribuível ao ministro.

Outro problema grave é a falta de informações essenciais. O investimento da família ocorreu em 2008, antes da entrada do fundo. O texto não informa quando o fundo investiu, quanto investiu, nem quando saiu ou quanto resgatou. Sem esses dados, não há como medir relevância econômica ou mesmo justificar a atenção dada ao caso. A omissão compromete toda a narrativa.

O próprio gráfico publicado desmonta a insinuação. Todas as relações societárias aparecem como encerradas. São vínculos antigos, marcados como “ex”, sem nenhuma relação atual. Ainda assim, a matéria trata essas ligações passadas como se fossem indícios presentes. É um raciocínio abusivo: ninguém responde hoje por atos cometidos décadas depois por antigos sócios.

A reportagem ainda lança a sigla PCC sem estabelecer nexo com o fundo citado ou com o ministro. O próprio jornal afirma que o fundo não é investigado e, logo em seguida, introduz o termo mais tóxico possível para induzir reação emocional no leitor. Quando esse recurso aparece, o padrão é conhecido: falta fato, sobra insinuação.

Não há investigação contra o fundo, não há vínculo societário atual, não há ato atribuível ao ministro. O que existe é uma narrativa construída para sugerir culpa por proximidade distante, encerrada e comum no funcionamento do sistema financeiro. Isso não esclarece o leitor. Apenas fabrica desconfiança.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.