Sakamoto: Hacker vai ao semiaberto enquanto o fechado aguarda por Zambelli

Atualizado em 13 de janeiro de 2026 às 11:34
Quem é Walter Delgatti, o hacker que liga Bolsonaro e Zambelli a tentativa de atacar processo eleitoral - Brasil de Fato
O hacker Walter Delgatti Neto e a ex-deputada Carla Zambelli. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Enquanto o hacker Walter Delgatti Neto, condenado por invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e plantar mandados falsos de prisão e de soltura, foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes a ir para o regime semiaberto, o Brasil ainda tenta extraditar a ex-deputada federal Carla Zambelli, o cérebro (sic) da operação.

A Corte de Apelação de Roma remarcou o julgamento para o próximo dia 20. Esse foi o terceiro adiamento; outros ocorreram em novembro e dezembro a pedido da defesa. Desde julho de 2025, ela está presa na Itália. A Justiça local negou pedidos de liberdade provisória e prisão domiciliar, pois há o risco de ela se pirulitar, como se pirulitou do Brasil para não cumprir a pena de dez anos de xilindró.

O Ministério Público italiano já emitiu um parecer favorável à extradição, argumentando que a cidadania italiana dela não impede a entrega ao Brasil, uma vez que os crimes pelos quais foi condenada são considerados crimes comuns, e não políticos.

Se perder na Corte de Apelação, ainda pode tentar um recurso na Corte de Cassação. E, se perder novamente, pode ser beneficiada com uma decisão do governo italiano.

Não há, até agora, contudo, indicativo de que o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni vá comprar essa briga com o Brasil. Se ainda fosse um Bolsonaro, seria mais lógico, dada a proximidade do clã com membros de seu governo, como o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini.

Mas se queimar por Zambelli — alguém que o próprio Jair acusa de ter contribuído para a sua derrota, em outubro de 2022, ao perseguir, com arma em punho, um homem negro pelas ruas dos Jardins, em São Paulo, na véspera do segundo turno, por uma discussão sobre política?

Após um quiprocó entre a Câmara dos Deputados (que inicialmente rejeitou a cassação de Zambelli) e o STF (a Corte ordenou a perda imediata do cargo devido à sua condenação), ela acabou renunciando ao mandato no mês passado — ou tendo a perda efetivada, o que depende da interpretação do final do embrólio. Mas a defesa usou todo o debate entre os poderes para tentar convencer a Justiça italiana de que a questão é política.

Quem executou a fraude começa a vislumbrar a porta de saída, enquanto quem a idealizou aposta no cansaço do calendário, nos recursos infinitos e na confusão institucional para adiar o encontro com a cela.

Se não houver intervenção política, o desfecho tende a ser menos cinematográfico do que a fuga e mais banal do que os discursos: o retorno ao país, o cumprimento da pena e o esvaziamento de uma narrativa distorcida que tenta vender crime comum como perseguição política.

O regime fechado precisa encontrar Zambelli. Para que fique claro que a democracia não se defende com hackers nem com pistolas — e tampouco com passaporte europeu.