PF aponta que Banco Master fazia empréstimos falsos para gerar receita artificial; entenda

Atualizado em 15 de janeiro de 2026 às 6:26
Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master. Foto: Reprodução

Documentos enviados pelo Ministério Público Federal e pela área de supervisão do Banco Central detalham um mecanismo considerado suspeito que funcionava de forma contínua no Banco Master, envolvendo empréstimos concedidos a empresas que não pagavam parcelas, fundos da gestora Reag e retornos artificiais que criavam, no papel, uma falsa rentabilidade. O esquema, agora alvo da Polícia Federal, teria permitido a circulação rápida de recursos por diversas estruturas financeiras antes de retornar ao próprio Master, compondo aplicações que reforçavam a aparência de solidez da instituição.

Segundo a investigação, os empréstimos eram aprovados e imediatamente repassados a fundos administrados pela Reag, fundada por João Carlos Mansur, que os registravam como operações rentáveis e, na sequência, redirecionavam os valores para outros produtos financeiros também ligados ao grupo.

A apuração, de acordo com informações divulgadas pelo Globo, indica que as parcelas eram sucessivamente prorrogadas às vésperas do vencimento, sem que houvesse “efetivo pagamento de juros nem amortizações”, de acordo com trecho do inquérito. Para o Ministério Público, essa dinâmica criava receita fictícia e mascarava riscos de inadimplência.

A supervisão do Banco Central detectou fragilidades já em julho de 2024, ao solicitar comprovação de liquidez de um dos fundos envolvidos. O Master respondeu que a responsabilidade por esses controles caberia à Reag, o que alertou os técnicos para a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”.

Em seguida, a gestora informou que os ativos dos fundos eram compostos quase integralmente por papéis antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor. Paralelamente, a Reag disse garantir liquidez mensal de até R$ 1 bilhão com uso do fundo Gold Style, mas o Banco Central constatou que essa carteira não possuía ativos líquidos suficientes para honrar resgates.

José Carlos Mansur, presidente do Reag. Foto: reprodução

Os documentos ressaltam que o uso desses papéis permitia uma “reavaliação indevida de ativos”, gerando rentabilidade extraordinária nos fundos. O caso mais emblemático, segundo o MPF, envolve o empréstimo de R$ 459 milhões à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag.

A empresa repassou quase todo o valor ao Fundo Brain Cash, criado apenas 20 dias antes com patrimônio inicial de R$ 15 mil. Em menos de duas horas, o dinheiro percorreu sucessivamente o Brain Cash, o Fundo D Mais e, por fim, o FIDC High Tower, que reavaliou papéis de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma variação inédita de 10.502.205% em 2024.

A PF suspeita que, após o circuito entre os fundos da Reag, parte dos valores retornava ao próprio Banco Master por meio da aquisição de Certificados de Depósito Bancário, principal produto de captação da instituição no mercado. Diante dessas evidências, agentes federais cumpriram mandados de busca e apreensão nesta quarta-feira (14) em endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do Master, e a João Carlos Mansur, da Reag.

A gestora já era alvo de outra investigação: a Operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro do ano passado, que apura possível lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do Primeiro Comando da Capital.

Entre os fundos citados em ambas as apurações estão Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, todos envolvidos em repasses considerados atípicos por sua velocidade e ausência de lastro consistente. A Reag nega irregularidades e afirma que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.