Percepção de ameaças no governo Trump leva mundo a preferir China, diz pesquisa

Atualizado em 15 de janeiro de 2026 às 10:28
Trump está 'bravo' por não ter sido avisado antes sobre o coronavírus - 16/04/2020 - UOL Notícias
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Reprodução

A pesquisa global do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) indica que, quase um ano após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, cresce no mundo a percepção de ameaça sob sua liderança, e mais países demonstram confiança na China como potência ascendente.

O levantamento divulgado nesta quinta-feira (15) mostra que cidadãos de 21 países veem Pequim como mais confiável para ampliar sua influência internacional do que os Estados Unidos, invertendo a lógica do “América primeiro” promovida pelo republicano.

Os dados mostram que as populações de todos os países pesquisados acreditam que a China aumentará sua influência na próxima década. Mesmo no Reino Unido, onde o ceticismo é maior, 50% veem avanço chinês. Apenas na Ucrânia e na Coreia do Sul a maioria enxerga Pequim como rival. Entre os BRICS, o apoio é expressivo: 73% no Brasil, 85% na África do Sul e 86% na Rússia consideram a China aliada ou parceira necessária.

Em contrapartida, apenas minorias acreditam que os EUA aumentarão seu poder. Em países como China, Rússia, Ucrânia e nos próprios Estados Unidos, um em cada quatro entrevistados acha que a influência americana vai diminuir.

O pesquisador Pawel Zerka explica que democratas e parte dos republicanos creem que Trump enfraquece os EUA ao romper alianças e atacar instituições internacionais.

“Trump está levando à marginalização dessas instituições multilaterais, destruindo muitas alianças, traindo seus aliados, ameaçando-os (…) não me surpreenderia se eles [os americanos] concluíssem que as ações dele estão levando a uma América mais fraca globalmente”, disse ao Globo.

Erosão da imagem americana e desconexão com a Europa

O estudo aponta queda na afinidade de europeus com os Estados Unidos. Hoje, apenas 16% dos europeus consideram os EUA aliados, abaixo dos 21% registrados no fim de 2024. Ao mesmo tempo, 20% veem Washington como rival ou inimigo. E 23% acreditam que as relações com os EUA vão enfraquecer nos próximos cinco anos — porcentagem maior do que a registrada sobre a China.

Ainda assim, a maioria dos brasileiros, sul-africanos, turcos e russos acredita ser possível manter boas relações com EUA e China simultaneamente. Quando obrigados a escolher um dos dois, grande parte dos entrevistados prefere a China.

Wiederwahl von Xi Jinping: Chinas Parteichef versetzt Börsen in Panik | FAZ
O presidente da China, Xi Jinping. Foto: Reprodução

Percepção sobre poder global e papel dos EUA em declínio

O relatório aponta que expectativas positivas sobre Trump diminuíram nos 21 países. Menos pessoas veem o presidente como bom para os americanos, para seus países e para a paz mundial. Em apenas dois países — China e Rússia — a maioria considera os EUA adversários. No Brasil, proporções semelhantes veem China e EUA como aliados potenciais.

A pesquisa também mostra que, para muitos, os EUA continuam relevantes, mas como potência entre outras, e não mais como líder absoluto. Isso reflete, segundo os autores, um “mundo pós-ocidental” em que novas configurações de poder ganham espaço.

Europa em posição frágil e aumento do pessimismo

O estudo registra mudanças significativas na visão global sobre a Europa. Brasileiros (53%) e chineses (55%) percebem mais distanciamento entre políticas europeias e americanas. Já os russos agora veem menos os EUA como adversários do que em anos anteriores, mas também demonstram menos simpatia pela Europa.

Na Ucrânia, cresce a confiança na União Europeia (39%) e cai a confiança nos EUA (18%), reflexo da postura americana diante da guerra. Entre europeus, predomina o pessimismo sobre a capacidade do bloco de negociar de igual para igual com Washington ou Pequim.

O relatório aponta que as “visões agressivas e desdenhosas de Trump e Putin” influenciam esse cenário, somadas ao medo de conflitos regionais, riscos nucleares e à percepção de que a tradicional relação transatlântica perdeu consistência.