
A CPMI do INSS ampliou o escopo das investigações ao identificar a atuação de templos religiosos como parte de um esquema de fraudes que afeta aposentados e pensionistas em todo o país. Segundo a relatora Damares Alves (Republicanos-DF), líderes de grandes igrejas e pastores influentes estariam integrados à engrenagem que direciona fiéis para descontos indevidos e empréstimos consignados que muitos dizem não ter contratado.
“Nós estamos identificando igrejas nos esquemas de fraudes aos aposentados. Há pastores que pedem para não investigar, não decepcionar os fiéis”, afirmou em entrevista ao SBT News.
As declarações provocaram reação de parte da comunidade evangélica. O pastor Silas Malafaia classificou a fala da senadora como “leviana e denigre de maneira geral a igreja evangélica”. Segundo ele, Damares mencionou “grandes pastores” sem apresentar nomes, o que, em sua visão, geraria generalização.
“Ao não citar nenhum nome em entrevista, ela publica uma nota que tem o nome de 1 grande líder e nenhum nome de grande igreja. Todos os outros nomes citados não representam grandes igrejas e não são líderes Renomados”, disse Malafaia.
Após a cobrança, Damares divulgou uma lista com nomes que tiveram pedidos de convocação, convite ou quebra de sigilo aprovados pela CPMI, incluindo André Machado Valadão, César Bellucci do Nascimento, Péricles Albino Gonçalves, Fabiano Campos Zettel e André Fernandes.
Entre as igrejas citadas estão Adoração Church, Assembleia de Deus Ministério do Renovo, SeteChurch e Igreja Evangélica Campo de Anatote. A senadora reforçou que todos os requerimentos têm base documental e foram aprovados pela comissão.
Após a divulgação da lista feita por Damares, Malafaia iniciou um novo surto nas redes, desafiando-a provar as denúncia. Apesar de ambos estarem no núcleo mais íntimo de Bolsonaro, eles representam um racha pela influência evangélica na extrema-direita. O pastor Malafaia investe na influência direta sobre o ex-presidente, Damares senadora pelo Republicanos, partido ligado Edir Macedo, dono da Igreja Universal.
NOTA À IMPRENSA – Atuação da CPMI do INSS e investigação de entidades religiosas
A senadora Damares Alves foi a parlamentar responsável pela apresentação do requerimento que resultou na criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) do INSS, instalada em 2025. Desde…— Damares Alves (@DamaresAlves) January 14, 2026
Como funciona o esquema
De acordo com a CPMI, o núcleo religioso funcionaria como porta de entrada para vítimas em situação de vulnerabilidade. A estratégia consistiria em abordar idosos dentro dos templos ou utilizar a autoridade moral de pastores para induzir ao fornecimento de dados pessoais.
Com essas informações, operadores do esquema registrariam autorizações fictícias para descontos e ativariam consignados que não eram comunicados às vítimas. “Templos e igrejas apareceram na apuração como possíveis canais de captação de aposentados e pensionistas para descontos indevidos”, explicou Damares.
O funcionamento descrito pela investigação aponta três etapas principais: captação dos aposentados, inserção de autorizações irregulares e repasse dos valores a instituições financeiras envolvidas. A primeira etapa ocorreria dentro de ambientes religiosos, onde os fiéis eram orientados por pessoas de confiança.
Em seguida, contratos eram formalizados eletronicamente sem consentimento real. Na fase final, bancos e correspondentes bancários descontariam valores diretamente do benefício mensal, enquanto operadores do esquema recebiam comissões e repassavam parte do lucro a intermediários.
A fraude se estenderia também aos empréstimos consignados, em muitos casos celebrados sem qualquer ciência do beneficiário. “Além dos descontos ilegais, aposentados e pensionistas relataram prejuízos com empréstimos consignados que não conheciam”, afirmou a senadora.
A bolsonarista acrescentou que a prática envolve múltiplas instituições financeiras: “Consignados não é só Banco Master. Nós estamos diante de um escândalo absurdo. Onde chegamos não tem mais caminho de volta”.
A CPMI afirma enfrentar forte pressão desde que instituições religiosas passaram a aparecer nos documentos analisados. Damares relatou tentativas de barrar o avanço das investigações.
“Quando se fala em um grande pastor, vem a comunidade: ‘não falem, não digam, não investiguem, porque os fiéis vão ficar muito tristes'”, relatou, em referência ao lobby de igrejas, bancos e políticos. O relatório preliminar da comissão deve ser divulgado em fevereiro, segundo o presidente Carlos Viana (Podemos-MG).