Toffoli escolhe os próprios peritos para o caso Master e cria novo atrito com a PF; entenda

Atualizado em 16 de janeiro de 2026 às 8:49
Dias Toffoli, ministro do STF. Foto: reprodução

A escolha nominal de quatro peritos da Polícia Federal pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), para atuarem na análise do material apreendido na Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira (14), ampliou o desconforto dentro da PF e abriu um novo foco de atrito institucional. A medida, tomada sem consulta à direção da corporação e anunciada antes mesmo de qualquer comunicação oficial interna, foi recebida como um gesto de desconfiança e interferência direta nas rotinas técnicas da Polícia Federal. Investigadores relataram que souberam da lista de peritos pela imprensa.

O procedimento tradicional prevê que o STF encaminhe ao Instituto Nacional de Criminalística (INC) a solicitação de perícia, cabendo ao órgão — que reúne mais de 200 especialistas — definir os profissionais adequados para cada caso. Ao apresentar uma lista previamente definida por seu gabinete, Toffoli rompeu essa cadeia decisória, retirando autonomia da direção da PF e enviando um sinal de que a Corte desejava controlar a etapa mais sensível da investigação: a extração e análise de provas digitais.

A crise se aprofundou porque a designação dos peritos ocorreu após duas mudanças consecutivas de posição em menos de 24 horas. Em um primeiro momento, Toffoli determinou que todos os aparelhos, documentos e bens apreendidos fossem lacrados e enviados diretamente para o STF, onde deveriam permanecer acautelados “até ulterior determinação”. A ordem gerou reação imediata de delegados, que alertaram para riscos de destruição remota de provas caso o material não fosse submetido a análise urgente da perícia. Havia preocupação também sobre a capacidade técnica do STF de realizar extração e processamento de dados em larga escala.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, formalizou um pedido para que o ministro reconsiderasse a decisão, argumentando que a retenção dos aparelhos poderia prejudicar a preservação das evidências. Paralelamente, peritos alertaram para a possibilidade de acessos clandestinos aos dispositivos, uma vez que smartphones, servidores e computadores podem ser manipulados à distância se permanecerem muito tempo sem isolamento adequado. Horas depois, Toffoli recuou parcialmente e autorizou o envio do material à Procuradoria-Geral da República (PGR).

Agentes da PF. Foto: reprodução

O passo seguinte ocorreu ainda na mesma sequência de eventos: após pedido do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ministro determinou que a PF enviasse todo o material apreendido à PGR para extração e análise completa das provas. Foi nesse momento que Toffoli apresentou a lista dos quatro peritos escolhidos por ele, com acesso irrestrito aos dados. O despacho determinou que Luís Filipe da Cruz Nassif, Tiago Barroso de Melo, Enelson Candeia da Cruz Filho e Lorenzo Victor Schrepel Delmutti teriam “livre acesso ao material apreendido” e atuariam com apoio da PGR.

Apesar da tensão institucional, todos os nomes citados são bem avaliados dentro da própria corporação. A apuração indica que são profissionais qualificados e experientes, com destaque para o chefe da área de perícia em informática, responsável pelo desenvolvimento do IPED — o Indexador e Processador de Evidências Digitais. A ferramenta revolucionou o tratamento de provas em grandes operações, como a Lava Jato e as investigações dos ataques de 8 de janeiro, permitindo que celulares e computadores sejam indexados em uma base única, cruzando milhares de mensagens, fotos, e-mails e documentos em segundos.

Ao lado dele, foi indicado o subchefe da mesma área, responsável pelo aprimoramento contínuo do IPED e por rotinas avançadas de análise, essenciais para investigações de grande volume de dados. O terceiro perito tem perfil especializado em economia e mercado financeiro, considerado estratégico em um caso que envolve movimentações bancárias complexas atribuídas ao Banco Master. O quarto nome, embora mencionado na lista, ainda não teve sua atribuição técnica detalhada por interlocutores da PF.

Dentro da corporação, o movimento é visto como um duplo desgaste: primeiro, pela interferência direta na autonomia técnica; segundo, pelos recuos rápidos que expuseram dúvidas sobre o comando das diligências e sobre a distribuição de responsabilidades entre STF, PF e PGR. Para delegados, a escolha direta pelo gabinete do ministro representou um sinal de afastamento da PF da fase mais sensível da investigação, aumentando o clima de tensão e preocupação sobre os próximos passos do caso.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.