A precarização da velha direita e do fascismo. Por Moisés Mendes

Atualizado em 16 de janeiro de 2026 às 9:43
Flávio e Michelle Bolsonaro. Foto: Reprodução

Malafaia não achou ninguém importante na lista de igrejas e pastores que possam estar envolvidos com os rolos do INSS. Damares Alves, conhecedora dessa gente, disse que a CPMI das fraudes havia identificado “grandes igrejas” sob suspeita.

Largou a lista sob pressão de Malafaia, e o pastor reagiu com desdém e agressividade, porque a relação de igrejas e colegas evangélicos não tem mesmo ninguém de primeira linha.

Michelle, em outra frente de batalha, aliou-se a Tarcísio de Freitas contra Flávio Bolsonaro, porque o filho ungido pelo pai não terá seu apoio. Flávio é considerado um candidato de segunda linha, sem envergadura para enfrentar Lula.

É o problema geral da extrema-direita hoje. Não há ninguém de primeira linha, com a grandeza de um Bolsonaro, para marcar os espaços e as posições do bolsonarismo. Nem os criminosos seriam de primeira linha.

Sem o chefe por perto, sobra para o fascismo agarrar-se às fake news de terceira linha de Nikolas Ferreira — e à estratégia de quarta categoria de tentar manter o Supremo sob a ameaça de impeachment de ministros.

Os jornalões, desesperados atrás de alguém que possa derrotar Lula, estão atrapalhados na abordagem do que Flávio significa como salvação para a direita, e não só para o bolsonarismo.

Mas Flávio é tão de segunda linha que a Folha o apresenta como candidato forte no primeiro turno, mas sem a força de Tarcísio no segundo. E o Globo o vê como competitivo porque vem caindo a rejeição ao seu nome pelo fato de ter sido indicado pelo pai.

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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Reprodução

Para a Folha, que se baseia no que diz seu instituto de pesquisas, Flávio arranca bem contra Lula. E se arranca bem, à frente inclusive de Tarcísio, pode se firmar mais adiante. Só que a diferença de Lula para Flávio é de 13 pontos no primeiro turno.

Ampliam-se os dramas da direita sem Bolsonaro. Desde muito antes do desfecho do julgamento do golpe, sabia-se que os golpistas eram fracos. Os generais não eram de primeira linha, como os de 64.

Seus ajudantes na montagem do golpe eram do mesmo nível. Os planejadores dos assassinatos de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes eram criminosos de péssima qualidade.

Com a prisão de Bolsonaro, fica provado que ele era o único nome de primeira linha no amplo espectro do que possa ser a direita hoje, considerando-se a antiga e a nova. Bolsonaro engoliu e precarizou a velha direita, mas foi condenado e encarcerado e não tem forças para inspirar a reação anti-Lula em 2026.

A direita toda, e não só a extrema-direita, está entregue a uma gente de segunda linha. Até as denúncias lavajatistas contra a mulher de Alexandre de Moraes, o filho de Lula e o cunhado do primo do tio de alguém que trabalha com Lula são de segunda categoria.

Há desalento na direita, mas mesmo assim as pesquisas informam que o bolsonarismo está vivo e entregue hoje à liderança de Flávio Bolsonaro. A velha direita, com articuladores de primeira linha do tamanho de um Ciro Nogueira, de Gilberto Kassab e de Valdemar Costa Neto, não tem um nome à altura dessas máquinas de angariar apoios, intrigas, dinheiro, conspirações e votos para o enfrentamento de 2026 contra Lula.

Não encontram nem pastores e igrejas de primeira linha envolvidos nas fraudes do INSS. Malafaia não viu ninguém importante, e ele tem lugar de fala do mesmo nível de Damares, porque eles sim são de primeira linha no mundo das igrejas, ao lado de Magno Malta e Sóstenes Cavalcante.

Não há mais um grupo de influencers que possam ser considerados de primeira, sabendo-se agora que Michelle classificou Allan dos Santos como um boneco de ventríloquo. Há muito tempo, talvez uma década, ninguém usava a comparação com boneco de ventríloquo para ofender alguém. Até nisso a direita perdeu força — na capacidade de atacar e ofender com alguma graça e originalidade.

Michelle viu Allan dos Santos como um boneco ligado a Lúcifer, e Nikolas Ferreira o enquadrou como um “bosta”. É uma sequência de ataques reveladores das fragilidades da direita, enquanto Eduardo se consagra como conspirador de segunda categoria.

Em meio a derrotas, brigas, cansaço e desilusões, Bolsonaro se comporta não como um preso altivo, mas como um encarcerado fragilizado mental e fisicamente, um presidiário de segunda linha.

Só Tarcísio poderia salvar toda a direita. Mas Tarcísio é visto dentro do bolsonarismo como vacilão e um bolsonarista inconfiável e de segunda linha.

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Foto: Reprodução
Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/