
Quando, em 2016, propus a Ação Direta de Constitucionalidade 43 no Supremo Tribunal Federal, que questionava a obrigatoriedade da prisão depois da condenação em 2ª instância, nossa preocupação fundamental era o sistema carcerário podre do Brasil. A própria Corte Suprema já havia declarado o estado de coisas inconstitucional nos presídios brasileiros, dada a extrema vulnerabilidade e a miserabilidade dos nossos presídios. Foi esse julgamento que propiciou a liberdade do presidente Lula.
À época, escolhi um partido político pequeno que tivesse a necessária legitimidade para propor a ação. Havia uma enorme repercussão do caso e a mídia tradicional era muito contrária a ele. Foi quando o então candidato Bolsonaro resolveu se filiar a esse partido, o PEN (que veio a se chamar Patriota e hoje é o PRD), para se candidatar à Presidência da República.
Fez, segundo o presidente do partido, duas exigências: que eu fosse destituído e que o PEN desistisse da ação. Constrangido, ele me ligou para falar sobre as exigências. Respondi que, óbvio, ele podia sim me destituir, mas a ação era indisponível. Fui destituído por imposição do fascista. Eu, então, entrei como amicus curiae, em nome do IGP, em uma ação na qual eu era o autor.
Falei da tribuna do plenário no Supremo Tribunal que, para mim, foi uma honra ter sido destituído por Bolsonaro, e que ganharíamos a ação, como de fato ganhamos. Lembro-me desse episódio para rememorar que Bolsonaro nunca se preocupou com o sistema carcerário. Ao contrário, desdenhava, provocava, discursava dizendo que cadeia não era para ressocializar; era para fazer “bandido pagar pelos erros”. Sempre criticou a todos nós que defendíamos o óbvio: o preso perde a liberdade, mas deve manter todos os demais direitos inerentes à pessoa humana.
Agora, vivemos uma situação lamentável, deplorável, patética, com grande parte da mídia glamorizando a exploração política teratológica de Bolsonaro na prisão. Registre-se o óbvio: na prisão! Ele está preso, condenado a 27 anos e 3 meses em regime fechado.
É um prisioneiro dentre os mais de 900 mil presos no Brasil. Os dados de 2024 indicam de 670 mil a 720 mil em celas físicas e mais de 230 mil em prisão domiciliar. É a 3ª maior população carcerária do mundo. E em condições excepcionais, de penúria.
Bolsonaro certamente está melhor do que 99,9% dos presos brasileiros. Covardes e sem dignidade, ele e a família reclamam de tudo — para fazer política. Nesta semana, a mulher, candidata, reclamou do absurdo de a cela só abrir às 8 horas da manhã. São súplicas que não se consegue entender. O que queriam? Que ele ficasse solto? Já está em uma situação muito melhor do que a média dos presidiários, os quais, por sinal, sempre foram ofendidos e humilhados pelo então político fascista Bolsonaro.
Na Papudinha, Jair Bolsonaro terá uma casa particular completa, com cozinha, banheiro, ar condicionado, uma cama e uma mesa de trabalho.
O ex-presidente condenado por golpe de estado terá uma estada ainda mais confortável no sistema penitenciário. pic.twitter.com/rzpmFgdPMc
— William De Lucca (@delucca) January 15, 2026
Inúmeras vezes ele desdenhou dos presidiários. Afirmava que nós, que lutávamos por condições dignas nos presídios, éramos desleais, cheios de mimimi. Claro que não quero a desgraça de ninguém, tampouco desse fascista desumano.
Mas a questão é fazer — repito — uma discussão que pode resultar em um avanço institucional. Os bolsonaristas, os fascistas e os ultradireitistas nunca fizeram algum gesto, projeto ou ação que fossem dignos de um sentimento humanista. São cruéis e desprovidos de humanidade. Se essas prisões servirem para trazer luz a essa discussão dramática, os fascistas terão feito, ainda que involuntariamente, um único passo rumo a certa humanização.
Pouco importa o ridículo a que se submetem esses seres escatológicos. O que devemos pensar é em avançar na discussão pela humanização dos presídios. Sei que retorno ao tema, mas o fato é que a insistência do ex-presidente em se expor depois das cirurgias, com imagens escatológicas e um apelo grotesco e banal por parte da família e seguidores, faz o assunto continuar atual. E aí é preciso repetir a única questão de interesse público: o fascista presidiário está sofrendo e quer discutir melhores condições carcerárias? Opa! Vamos fazer isso.
Esse trapo humano talvez sirva para algo digno na sua longa vida de obscenidades. Ele e seus seguidores, que fazem jus a tanta covardia e ignorância.
Lembrando-nos do grande Mia Couto:
“Deixei de rezar
Nas paredes
Rabiscadas de obscenidades
nenhum santo me escuta
Deus vive só
e eu sou o único
que toca sua infinita lágrima
Deixei de rezar
Deus está numa outra prisão.”