Michelle sabe onde Bolsonaro não pode ficar. Por Moisés Mendes

Atualizado em 16 de janeiro de 2026 às 21:25
Michelle Bolsonaro ao lado de Jair Bolsonaro, ele sério e ela fazendo coração com as mãos
Michelle Bolsonaro ao lado de Jair Bolsonaro – Reprodução

A extrema direita e até as esquerdas estão confusas, tanto quanto Michelle e os filhos de Bolsonaro, sobre a transferência do sujeito de uma cela da Polícia Federal para a Papudinha, por ordem de Alexandre de Moraes.

As esquerdas comemoram porque agora, estando encarcerado na Papudinha, Bolsonaro está onde não queria. A cela na Papudinha é sinônimo de cadeia, mesmo que seja na verdade um apartamento dentro do 19º Batalhão da Polícia Militar.

Alexandre de Moraes passou a ser visto de novo como um ministro inflexível e autoritário pela direita, que define a mudança como perseguição. Um dos mais incisivos foi Flavio, que diz não ter entendido a troca.

Pois Michelle entendeu. Foi ela quem conversou com Moraes pouco antes da decisão de ontem. É dela uma nota publicada nas redes sociais e depois apagada, segundo a qual as condições na Papudinha são “menos torturantes”.

É dela uma nota em que a Polícia Federal é elogiada pelo tratamento dispensado a Bolsonaro durante o tempo em que ele esteve ali. Assim como eram delas as críticas à mesma PF, logo depois da queda de Bolsonaro dentro da cela.

Michelle entendia que a PF havia sido negligente ao não socorrer Bolsonaro logo depois da queda, mas mudou o tom e passou a ser elogiosa.

Assim como pediu para não ser julgada por ativistas da extrema direita por ter se encontrado com Moraes e Gilmar Mendes. O vazamento dos encontros, por algum assessor de Michelle, deixa claro o que ela queria: que Bolsonaro saísse da PF.

Michelle passa a ser vista por bolsonaristas como cúmplice, mesmo que involuntária, da decisão de Moraes mais esperada pelas esquerdas: o encarceramento do golpista na cela de um lugar que tem nome de cadeia.

O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), disse sobre a decisão de Moraes:

“A transferência para a Papudinha escancara o abuso: traficantes e assassinos recebem tratamento mais humano do Estado do que um homem preso por crime impossível. (…) Por mais que a nova prisão seja mais ampla que a atual, com idade e comorbidades que tem, Bolsonaro deveria estar em prisão domiciliar”.

O filho Carluxo classificou a transferência como um “marco simbólico de confronto institucional” (ele vai para uma ‘cadeia’), porque o local é “um ambiente prisional severo”.

Nessa sexta, Michelle deu uma recuada e publicou o seguinte, para se recuperar do que havia dito antes, conformada com a transferência e dando a entender que desistira da prisão em casa:

“O lugar do meu marido é em casa. É lá que ele deveria estar”.

Por que apagou também essa postagem logo depois? Michelle está confusa e passa mensagens enviesadas ao bolsonarismo.

Bolsonaro está melhor na Papudinha do que na cela da PF? A extrema direita não sabe, porque está dividida sobre se livrar ou não de Bolsonaro.

E a esquerda faz do que aconteceu a melhor interpretação política possível: Papuda era o nome que Bolsonaro queria evitar, e Papudinha já serve.

Claro que é zoação, como se dizia antigamente, mas uma das versões para o encontro de Michelle com Moraes é esse: ela foi pedir ao ministro que, pelo amor de Deus, não mande Bolsonaro de volta pra casa.

Michelle, que está em campanha para o Senado em Brasília e ganhou vida própria, sem depender do marido,sabe que a volta de Bolsonaro para casa transformaria sua vida num inferno.

 

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/