Após morte de mulher pelo ICE, grupo armado ligado aos Panteras Negras aparece nos EUA

Atualizado em 17 de janeiro de 2026 às 10:37
Integrantes do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, incluindo Paul Birdsong (à dir.), marcham em protesto nos EUA

O assassinato de Renee Nicole Good, morta a tiros por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis, provocou uma nova onda de protestos nos EUA e reacendeu temores sobre violência de estado.

Integrantes de um grupo que se identifica como Black Panther Party for Self-Defense (Partido dos Panteras Negras para Autodefesa) passaram a atuar de forma mais visível na Filadélfia, incluindo com presença armada em manifestações públicas.

Na última semana, membros participaram de um protesto contra o ICE em frente à prefeitura da Filadélfia, portando armas militares. Eles afirmam ter respaldo legal para portar armamento e dizem que sua atuação é uma resposta direta ao que consideram violência promovida pelo governo Donald Trump e pelo aumento da presença de agentes federais em cidades americanas.

Segundo o grupo, trata-se de uma retomada do Partido dos Panteras Negras original, movimento criado nos anos 1960, e alguns de seus integrantes receberam orientação de integrantes históricos ainda vivos. Um dos líderes é Paul Birdsong, de 39 anos, que se apresenta como presidente nacional da organização. Ele afirma que a presença armada visa proteger manifestantes e comunidades negras.

Birdsong esteve no protesto um dia depois de o agente do ICE Jonathan Ross ter matado Renee Good, de 37 anos. “Isso não teria acontecido se estivéssemos lá. Ninguém teria sido tocado”, afirmou. O governo Trump defendeu rapidamente o agente, com o vice-presidente JD Vance alegando que Ross teria “imunidade absoluta” e estava apenas “fazendo seu trabalho”. Autoridades de Minnesota, no entanto, pediram investigação sobre o caso.

Birdsong diz que os Panteras Negros da Filadélfia organizam, há anos, distribuições semanais de alimentos gratuitos no norte da cidade. Na última sexta-feira, montaram um ponto de apoio em frente a uma igreja, oferecendo frutas, verduras, pão, enlatados, itens de higiene, roupas infantis e sopa à comunidade local.

De acordo com Birdsong, os recursos vêm de contribuições dos próprios membros e de doações de moradores. O grupo afirma ter menos de 100 integrantes na cidade e recentemente passou a ocupar um imóvel que, segundo Birdsong, já teria sido sede de uma filial original dos Panteras Negras.

O Partido dos Panteras Negras original foi fundado em 1966 por Bobby Seale e Huey P. Newton, em Oakland, Califórnia, com foco no combate à brutalidade policial e na promoção de programas sociais voltados a comunidades negras, como alimentação, saúde e educação.

Foi alvo de repressão do FBI sob o comando de J. Edgar Hoover, que buscou “desacreditar, desarticular e destruir” organizações de direitos civis. Casos emblemáticos incluem a morte de Fred Hampton e Mark Clark, em Chicago, durante uma operação policial.

Especialistas em direitos civis e defensores da democracia costumam argumentar que a não violência é fundamental para protestos eficazes e que armas tendem a aumentar o risco de confrontos. A legislação da Pensilvânia permite o porte ostensivo de armas, mas na Filadélfia — classificada como “cidade de primeira classe” — é obrigatória licença específica para porte, segundo advogados especializados.

Birdsong rebate as críticas. “Nós nos sentimos seguros aqui. Não há polícia nem traficantes nos ameaçando”, afirmou. Durante a distribuição de alimentos, enquanto alguns membros serviam sopa a crianças e moradores, outros faziam a segurança do local portando fuzis e armas semiautomáticas.