
O litoral de Santa Catarina, com mais de 530 km de extenção e concentração de algumas das praias mais valorizadas do Brasil, depende diretamente delas para sustentar o turismo e a economia local. Esse patrimônio, porém, vem sendo rapidamente corroído pelas mudanças climáticas. Nos últimos cinco meses, ao menos sete municípios catarinenses decretaram situação de emergência após sucessivas ressacas avançarem sobre áreas urbanas, destruírem faixas de areia e provocarem prejuízos à infraestrutura costeira.
Os decretos permitem intervenções imediatas, como enrocamentos de pedra e a chamada “engorda” das praias, técnica que consiste no despejo de grandes volumes de areia para ampliar artificialmente a faixa costeira. Santa Catarina lidera esse tipo de investimento no país.
Em reportagem do Estadão, prefeituras afirmaram que as obras fazem parte de uma “estratégia estruturada de gestão costeira” e ajudam a tornar as praias “mais atrativas”. Especialistas, porém, alertam que se trata de soluções paliativas.
Para o oceanógrafo Paulo Roberto Pagliosa Alves, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, o problema exige planejamento de longo prazo. “Não se lida com um problema desse porte com decretos emergenciais, mas com planejamento, debate público e planos municipais de adaptação e mitigação da mudança climática”, afirmou ao jornal Estado de São Paulo.
Segundo ele, o nível do mar sobe em ritmo acelerado: entre 2014 e 2023, a elevação média anual foi de 4,7 milímetros; em 2024, chegou a 5,9 milímetros. O fenômeno é impulsionado pelo aquecimento dos oceanos e pelo derretimento de gelo continental.
As consequências incluem erosão, alagamentos frequentes, salinização de aquíferos e danos a ecossistemas costeiros. Em Santa Catarina, os impactos são agravados por ciclones extratropicais formados no Atlântico Sul.

Municípios como Balneário Barra do Sul enfrentam a repetição de ressacas desde o ano passado, com invasão do mar em áreas residenciais e desaparecimento total da faixa de areia em alguns trechos. “Já tentamos conter o avanço do mar com enrocamento, mas não foi definitivo”, disse Leonardo Pupo, coordenador da Defesa Civil local.
Em Florianópolis, a capital decretou emergência após ressacas atingirem praias do norte e do sul da ilha. Na Praia dos Ingleses, muros de residências, postes e sistemas de drenagem foram danificados, mesmo após uma obra de alargamento concluída em 2023. Parte da areia foi levada pelas correntes, evidenciando a limitação da técnica.
Outras cidades, como Itapema, Barra Velha, São Francisco do Sul e Garopaba, também registraram danos severos. Já Itapoá conduz o maior projeto de engorda do país, com 6,4 milhões de metros cúbicos de areia para ampliar praias em até 100 metros. A expectativa é reduzir o impacto das ressacas, mas pesquisadores alertam que o efeito tende a ser temporário.
Desde 2018, ao menos seis projetos desse tipo foram executados no estado e muitos já precisaram de correções. Para Alves, o uso recorrente dessas obras revela uma lógica voltada mais ao estímulo imobiliário do que à adaptação climática. “Estamos ganhando tempo, mas agravando o problema ao insistir em soluções que não enfrentam a causa”, afirma.
O também pesquisador da UFSC Paulo Horta reforça que o aterro de praias não resolve a erosão de forma definitiva. Ele defende soluções baseadas na natureza, como restauração de restingas, manguezais, dunas e até recifes de ostras, capazes de reduzir a energia das ondas e reter sedimentos.
“Precisamos restaurar o balanço natural e planejar a ocupação do território. Agir contra a dinâmica costeira só amplia os riscos no médio e longo prazo”, disse.