
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul, assinado após mais de 25 anos de negociações, marca uma inflexão estratégica no comércio internacional e no equilíbrio global de poder. Em um cenário pressionado por tarifas impostas por Donald Trump e pela rivalidade crescente com a China, o pacto passa a ser visto em Bruxelas como um instrumento de resiliência econômica e geopolítica, e não apenas como um acordo comercial clássico. Com informações da DW Brasil.
A iniciativa une os 27 países da UE a Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, criando uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo. Embora o impacto direto no PIB europeu seja limitado, o acordo amplia mercados para produtos industriais e fortalece cadeias de suprimento em um momento de fragmentação da economia global. Para líderes europeus, trata-se de garantir autonomia estratégica diante de choques externos.
Um dos pontos centrais do interesse europeu é o acesso facilitado a minerais estratégicos brasileiros. O Brasil concentra parcelas relevantes da produção global de alumínio, grafite, tântalo e domina o mercado de nióbio, insumo essencial para siderurgia, tecnologias limpas e aplicações de alta complexidade. Reduzir a dependência chinesa desses materiais tornou-se prioridade para a UE, especialmente após a guerra na Ucrânia e as disputas comerciais com os EUA.
Do lado europeu, a indústria automobilística alemã aparece como uma das principais beneficiadas, ao buscar novos mercados para compensar a desaceleração da demanda chinesa e os efeitos das tarifas norte-americanas. Já no campo político interno, o acordo enfrenta forte resistência de agricultores e ambientalistas, que temem concorrência desleal, flexibilização regulatória e impactos ambientais, sobretudo sobre a Amazônia.

A França liderou a oposição ao pacto, pressionada por protestos agrícolas, e foi acompanhada por países como Polônia, Irlanda, Áustria e Hungria. Ainda assim, o acordo avançou graças às regras de maioria qualificada da UE, que permitem decisões comerciais mesmo sem consenso total. Em Bruxelas, o episódio é visto tanto como demonstração de capacidade de ação do bloco quanto como prenúncio de novas disputas políticas.
Analistas apontam que o tratado sinaliza uma mudança mais ampla na ordem econômica internacional. A UE acelera negociações com outros parceiros, como Índia e Indonésia, enquanto países sul-americanos ganham peso estratégico. O movimento reforça a percepção de um mundo mais fragmentado, no qual alianças comerciais passam a redesenhar o equilíbrio de poder global.