
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Trump tanto pediu que ganhou um Nobel da Paz para chamar de seu. Maria Corina Machado, que venceu o prêmio no ano passado, entregou a medalha ao presidente norte-americano em um evento na Casa Branca. Os responsáveis por concederam a honraria, em Oslo, correram para dizer que o galardão não é transferível. Na placa que entregou a Trump, Corina diz que ele teve “ação decisiva e baseada em princípios para garantir uma Venezuela livre”.
“Maria me presenteou com seu Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho que realizei”, postou Trump, em agradecimento. Ele sabe que não ganhou o prêmio de fato, mas a ambiguidades das declarações se alinha à sua estratégia de causar polêmica e se manter em evidência. De qualquer forma, assombra tanto a humildade (sic) do presidente quanto a dignidade política (sic) de Corina, que achou que seria aclamada líder da Venezuela, foi escanteada por Washington e segue lá.
Isso gerou bafafá na Noruega. O Centro Nobel da Paz afirmou que “uma medalha pode mudar de dono, mas o título de laureado com o Nobel da Paz não pode”. Tanto que alguns laureados venderam suas medalhas de ouro para arrecadar grana para algumas causas nobres e outras, nem tanto. Já os organizadores do prêmio, o Comitê Nobel Norueguês e o Instituto Nobel Norueguês, apontam que o prêmio “não pode ser revogado, compartilhado ou transferido”.
Políticos noruegueses expressaram sua contrariedade e indignação com o ato de Corina, dizendo que isso gera polêmica à imagem do Nobel da Paz. Isso também precisa ser entendido em meio a um momento em que Trump ameaça invadir a Groenlândia, da vizinha Dinamarca. Mas a crítica é simplista, pois a imagem do prêmio já está envolta em polêmica.
A decisão do comitê de Oslo de conceder o Nobel da Paz à opositora venezuelana foi vista como uma escolha política e controversa, ignorando o passado antidemocrático da líder. Não é porque você é contra um tirano que você se torna um santo. E, ao final, o prêmio acabou servindo como um atalho para a influência de Donald Trump sobre a América Latina.
Ao destacar uma figura individual, o Nobel perdeu a chance de reconhecer a luta coletiva pela democracia na Venezuela e, pior, acabou, contraditoriamente, legitimando o bombardeio dos EUA contra o país, algo que Corina Machado defendia constantemente. E, com a busca da paz como desculpa, os EUA foram atrás de petróleo e poder sobre o seu quintal. Democracia via eleições diretas, livres e imediatas? Melhor não, o chavismo na coleira é mais útil.
O Nobel dado à opositora de Nicolás Maduro ocorreu em um momento em que o país segue com um governo autoritário e com fraudes eleitorais. Desde que o resultado da última eleição foi proclamado, o país viveu protestos, mortes, prisões de lideranças da oposição, busca por refúgio em embaixadas e guerra de versões. O Brasil não reconheceu a vitória de Maduro, bem como a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros.
Pablo Uchôa, pesquisador e docente do Institute of the Americas da University College em Londres, especialista em Venezuela, avaliou à coluna que teria sido mais oportuno um prêmio a uma organização da sociedade civil nos Estados Unidos que atuasse na luta pela democracia. “No ano em que o espectro do fascismo começa a se alastrar pelos Estados Unidos, o comitê do Nobel resolve premiar a sua maior aliada na América Latina”, avaliou.

Agora, o comitê reclama que ela simplesmente repassou o prêmio para o seu líder?
Por fim, ela não foi a primeira, nem será a última premiada com o nome envolto em polêmica. A escolha mais controversa foi a do ex-secretário de Estado Henry Kissinger, em 1973, devido ao acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietnã. Mas ele estava por trás de carnificinas, como o bombardeio do Camboja e uma série de golpes de Estado pelo mundo.
O presidente Barack Obama recebeu o galardão em 2009, apenas meses após assumir a Presidência dos EUA, por esforços e expectativas, não por conquistas concretas de paz. Lembrando que os EUA ocupavam o Iraque e o Afeganistão na época.
Aung San Suu Kyi, de Myanmar, recebeu o prêmio em 1991. Era celebrada como um ícone da democracia enquanto esteve em prisão domiciliar, mas depois, no poder, foi criticada por permitir o massacre da minoria muçulmana Rohingya pelo exército de seu país.
O primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed, ganhou o Nobel da Paz em 2019, por resolver um conflito de fronteira com a Eritreia. Depois do prêmio, ordenou uma ofensiva militar na região de Tigray, desencadeando massacre étnico e uma crise humanitária.
Vale lembrar que Mahatma Gandhi, líder espiritual e político, conhecido por liderou a independência da Índia do Reino Unido através da resistência não violenta, nunca venceu o Nobel da Paz.
Tudo isso dá uma esperança danada para Trump. Considerando a falta de critério do Nobel da Paz, ele pode, após guerras, invasões e mortes, ainda ganhar um prêmio com o seu nome, e não algo de segunda mão.