
Donald Trump prometeu, em sua campanha, que os Estados Unidos iriam reduzir a presença militar ao redor do mundo. Seja por necessidade de distrair o público interno diante do escândalo com os arquivos do predador sexual Jeffrey Epstein, do sangue derramado pela agência de imigração e pela falta de resultados econômicos, seja porque sentiu prazer com a projeção fálica do poder bélico, Trump vem emulando comportamentos de líderes no pré-Segunda Guerra. Saem os Sudetos, entram a Venezuela e a Groenlândia.
A ideia de “comprar” o território dinamarquês foi tratada como anedota durante o seu primeiro mandato, uma excentricidade típica de um presidente que confunde geopolítica com corretagem e acha que o mundo é um grande tabuleiro de Banco Imobiliário. Mas que, pelo menos, o uso do dinheiro guardava algum alinhamento com a política norte-americana para o continente após 1945.
No ano passado, a piada ganhou tons sinistros e, em 2026, perdeu a graça. O que antes soava como delírio virou ameaça militar concreta, não com compra, mas anexação mesmo. O tabuleiro do jogo passou a ser o de War, com objetivo de conquistar Europa, América do Sul e um terceiro continente à sua escolha.
Logo após bombardear a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro, ele voltou a flertar com uma intervenção armada na Groenlândia ao afirmar que os Estados Unidos precisam dela “do ponto de vista de segurança nacional”. Por conta de sua posição estratégica frente à Rússia e China, e dos estratégicos minerais em seu subsolo.

Legenda da foto,Trump defende que Groenlândia é um território fundamental para a defesa dos EUA
Isso gerou uma reação de líderes europeus que reafirmaram que “cabe apenas à Dinamarca e à Groenlândia decidir sobe assuntos envolvendo a Dinamarca e a Groenlândia”. Em resposta, Trump anunciou um tarifaço de 10%, que pode chegar a 25% em junho, contra Dinamarca, França, Alemanha, Noruega, Finlândia, Suécia, Reino Unido e Países Baixos. A razão irracional: eles são contra a entrega da ilha aos EUA.
Por pressão de Trump, que desejava gastar menos com a Otan, a organização militar do Atlântico Norte, os demais membros se comprometeram subir de 2% para 5% do seu PIB em gastos de defesa até 2035. A Alemanha já começou o processo de se armar, o que, aliás, assustou muita gente dentro e fora do país. Mas, com uma invasão sobre a Groenlândia, ele não apenas vai implodir a Otan (o que será um presentão para Vladimir Putin), mas, na prática, declarar guerra à Europa.
O Artigo 5º da Otan diz que um ataque contra um membro é um ataque contra todos. Mas e quando o agressor é justamente quem manda, paga a conta e dita as regras do jogo? Os EUA, aliás, invocaram esse artigo logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, chamando os aliados a defenderem o país.
Se tropas norte-americanas desembarcarem em Nuuk à revelia de Copenhague, a Europa será empurrada para um beco sem saída. Ou aceita a humilhação da submissão ao novo imperialismo norte-americano, ou entra em guerra com Washington. Uma guerra que não vai envolver tropas, porque o continente não é páreo para o poderia militar do quase ex-aliado, mas que pode levar a um realinhamento para outras partes do mundo. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul já é parte dessa mudança de política externa. E a China está logo ali e, pelo menos, é mais estável.
Sem a garantia militar dos Estados Unidos, a Rússia não precisará disparar um tiro para ampliar sua influência no Leste Europeu. Trump, em nome de um nacionalismo tosco e da política do porrete, estará fazendo para Putin o que décadas de pressão diplomática e militar não conseguiram fazer.
Os EUA passaram um século intervindo no mundo, derrubando regimes, bombardeando, matando em busca de petróleo, ops, de democracia. Mas, com Trump, adicionaram a imprevisibilidade. Para o Brasil e o restante da América Latina, o aviso não poderia ser mais explícito: soberania agora vale o quanto durar o bom humor do atual inquilino da Casa Branca.
A reação europeia em defesa da Groenlândia não é altruísmo. É instinto de sobrevivência. Líderes sabem que, se aceitarem a ocupação forçada de um território europeu por um aliado, estarão assinando o atestado de óbito da ordem internacional baseada em regras. O que está em curso não é apenas expansionismo. É a desmontagem consciente das instituições que, com todos os seus defeitos, evitaram uma Terceira Guerra Mundial nas últimas décadas.
Se no Banco Imobiliário quem acumula propriedades e riqueza vence pelo esgotamento dos outros, no War ganha quem faz tudo para vencer, transformando aliados em inimigos e normalizando a agressão como método. Trump decidiu jogar a segunda versão. Abriu mão das regras, virou o tabuleiro e aposta que ninguém terá coragem de virar a mesa.
O problema é que, quando a maior potência do planeta atropela as mínimas regras do jogo que existiam e passa a tratar a força bruta como a única linguagem, não há vencedores, só territórios ocupados, alianças quebradas, aumento de ressentimentos e um mundo mais instável — para os próprios EUA inclusive. Quando o jogo muda, ninguém sai ileso.
Uma vitória de Pirro é aquela conquista obtida a um custo tão alto que, na prática, equivale a uma derrota. A expressão vem do rei Pirro de Epiro, que venceu batalhas contra os romanos no século 3 a.C., mas perdeu tantos soldados e recursos que teria dito: “Mais uma vitória como essa e estou perdido”. Ou seja, é quando se ganha no placar imediato, mas se comprometem as condições de continuar lutando, governando ou exercendo poder, o triunfo existe, mas corrói quem o alcança.
Originalmente publicado pelo site do UOL