UE estuda taxas de € 93 bilhões contra EUA após ameaças de Trump por Groenlândia

Atualizado em 18 de janeiro de 2026 às 18:41
Bandeira da União Europeia. Imagem: reprodução

Países da União Europeia avaliam impor tarifas de € 93 bilhões (cerca de R$ 580 bilhões) aos Estados Unidos ou restringir o acesso de empresas americanas ao mercado europeu em reação às ameaças do presidente Donald Trump envolvendo a anexação da Groenlândia. Com informações do G1.

Líderes dos 27 países do bloco se reúnem neste domingo (18), em Bruxelas, em encontro emergencial convocado para discutir uma resposta conjunta ao aumento das tensões diplomáticas e militares no Ártico. A reunião ocorre sob a presidência rotativa da UE, atualmente exercida pelo Chipre.

O objetivo é alinhar uma estratégia comum após Trump anunciar a intenção de impor tarifas de 10% — com possibilidade de elevação para 25% a partir de junho — contra Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia.

Segundo autoridades ouvidas pelo Financial Times, as medidas de retaliação buscam fortalecer o poder de barganha europeu antes de encontros decisivos com o presidente dos Estados Unidos durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta semana. Ao mesmo tempo, governos tentam evitar uma ruptura profunda na aliança militar ocidental, considerada essencial para a segurança da Europa.

De acordo com o jornal britânico, as tarifas europeias já estavam prontas desde o ano passado e haviam sido suspensas até 6 de fevereiro, mas voltaram à mesa de negociações neste domingo. Também foi discutido o uso do chamado instrumento anti-coerção, que permitiria restringir o acesso de empresas americanas ao mercado do bloco.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falando para a câmera
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – Reprodução

O instrumento anti-coerção da União Europeia é um mecanismo criado para responder a pressões econômicas externas, como ameaças tarifárias usadas para forçar decisões políticas. Ele autoriza medidas de retaliação comercial e funciona como recurso de último caso, com foco em dissuasão.

A escalada ocorre após Trump intensificar a ofensiva para que a Groenlândia se torne parte dos Estados Unidos. A ilha, localizada no Ártico, pertence à Dinamarca, que afirma não estar disposta a negociar sua soberania. Nesta semana, o presidente norte-americano reiterou que os EUA “precisam” da ilha e disse que não se pode confiar na Dinamarca para protegê-la.

No sábado (17), líderes europeus classificaram a ameaça como uma “perigosa escalada” e reafirmaram apoio à soberania dinamarquesa sobre o território semiautônomo. Em resposta, países europeus anunciaram o reforço da segurança no Ártico, incluindo o envio de pequenos contingentes militares à ilha, a pedido do governo da Dinamarca.

Em comunicado conjunto, Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda afirmaram estar comprometidos com a defesa da Groenlândia e com o fortalecimento da segurança do Ártico no âmbito da Otan. O governo da Groenlândia agradeceu publicamente o apoio.

A crise também gerou protestos. Milhares de pessoas foram às ruas da Groenlândia e de Copenhague no sábado para criticar a intenção de Trump de anexar o território.

Trump afirma que a ilha é estratégica para a segurança dos EUA, por sua localização e por suas reservas minerais, e não descartou o uso da força — o que elevou o nível de alerta entre aliados europeus.

Autoridades da União Europeia alertaram que o uso de tarifas como instrumento de pressão pode prejudicar as relações transatlânticas e enfraquecer a cooperação entre aliados. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o bloco permanecerá “unido e coordenado” na defesa de sua soberania. Já a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, afirmou que divisões internas beneficiariam rivais estratégicos como Rússia e China.

O primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, declarou que o país não aceitará intimidações. “Não nos deixaremos chantagear”, disse. O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, defendeu que divergências na Otan sejam resolvidas por meio do diálogo, e não da pressão.

“O diálogo com os Estados Unidos continua. Tarifas prejudicariam a relação transatlântica e poderiam levar a uma espiral descendente perigosa”, afirmou Stubb em comunicado. Já o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, disse haver amplo consenso na Otan para fortalecer a segurança no Ártico.

O presidente da Finlândia, Alexander Stubb. Imagem: reprodução

“Ameaças não têm lugar entre aliados. A posição da Noruega é firme: a Groenlândia faz parte do Reino da Dinamarca”, declarou.

No sábado, o presidente da França, Emmanuel Macron, classificou como inaceitáveis as ameaças tarifárias feitas por Trump e afirmou que a Europa responderá de forma unida e coordenada caso as medidas se confirmem. Segundo a Bloomberg, Macron deve pedir a ativação do instrumento anti-coerção, ferramenta inédita do bloco.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que a União Europeia avalia uma resposta conjunta e reiterou que o bloco será firme na defesa do direito internacional.

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, alertou que a ordem mundial “como a conhecemos” e o futuro da aliança da Otan estão em risco diante das ameaças feitas por Trump. “Não tenho nenhuma dúvida de que há um forte apoio europeu”, disse.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que conversou com Trump “sobre a situação de segurança na Groenlândia e no Ártico” e disse esperar novos encontros em Davos.

Na última quarta-feira (14), os governos da Dinamarca e da Groenlândia anunciaram que aumentarão a presença militar na ilha e no Ártico em coordenação com outros países da Otan.

Apesar de protestos da Rússia, que acusa a Europa de ter “planos beligerantes”, a Otan mantém presença constante na região. Exercícios militares são frequentes: os mais recentes ocorreram no início desta semana; em setembro de 2025, a Dinamarca realizou manobras com aliados ao redor da Groenlândia; em março de 2024, Noruega, Suécia e Finlândia treinaram no norte da Noruega; e a aliança prevê dois exercícios no Ártico em 2026, ambos na costa norueguesa

Sofia Carnavalli
Sofia Carnavalli é jornalista formada pela Cásper Líbero e colaboradora do DCM desde 2024.