
De pronto, peço calma: usarei, a partir de agora, o termo correto – pessoas com nanismo. O título vai assim porque esse é o registro do processo na França. Explicarei.
Durante muitos anos, na França, praticava-se lancer de nains, ou dwarf tossing (em inglês). Aos poucos, muitos franceses se indignaram. Ficaram com vergonha alheia. Algo como os pezinhos amarrados das chinesas, cuja prática acabou por causa do sentimento de vergonha, como bem conta o best-seller de Kwame Appiah, O Código de Honra (recomendo). A vergonha liberta.
A atração “lancer de nains” gerou uma lei nos anos 90, começando pelas cidades de Morsang-sur-Orge e Aix-en-Provence. O nano envolvido na primeira cidade, Manuel Wackenheim (que ganhava a vida com isso e se voluntariava), contestou a proibição judicialmente, alegando discriminação e perda de emprego.
Em 1995, a Corte da França considerou constitucional a lei que proibia o arremesso. A vergonha vencia a desfaçatez e a humilhação.
POR QUE O BBB BRASILEIRO EQUIVALE AO ARREMESSO DE ANÕES NA FRANÇA
Lenio Luiz Streck
– De pronto, peço calma: usarei a partir de agora o termo correto – pessoas com nanismo. O título vai assim porque esse é o registro do processo na França. Explicarei.
– Durante muitos anos na…— Lenio Luiz Streck (@LenioStreck) January 19, 2026
E O BIG BROTHER BRASIL? SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, VOYERISMO MAIS SADISMO
Bom, alegoricamente, o BBB é o nosso arremesso de pessoas com nanismo. Com a diferença de que os participantes não vivem necessariamente (como Manuel) desse “arremesso”, e a TV ganha verdadeira fortuna, expondo as pessoas como macacos em jaulas (coisa patética o que se viu nos últimos dias). Inacreditável.
Aliás, a objetificação da mulher é um bom indicador para a indignação (deveria ser assim, penso). O episódio do último domingo (o participante que atacou uma moça), aliado ao que se viu nos diversos BBBs dos anos anteriores, dá o tom da falta de capacidade de indignação da sociedade (regra geral). Milhões de pessoas assistem.
É o gozo com voyeurismo. Objeto? Homens e mulheres enjaulados e confinados, postos a provas psíquicas e físicas – muitas vezes de forma indignante. Ratos de laboratório televisivo. Sim, assim como Manuel, aqui há uma disputa de centenas de milhares de candidatos à jaula. Alguém dirá: o que você tem a ver com isso? Se eles querem… OK. Mas, se a regra é essa, poderemos imitar coisas como o arremesso francês (é uma alegoria, OK)?
Nosso “arremesso de nanos” fatura milhões. Há 850 pessoas envolvidas na produção. Tudo é um grande texto. Uma humilhação consentida? Uma servidão voluntária?
Além disso, há uma gama de reciclagem dos restos de BBB. Existem “especialistas” em BBB. Vários programas fazem essa reciclagem. Espantoso esse triunfo da agnotologia (a construção deliberada da alienação e da ignorância).
Qual é o limite da (in)dignidade? Vale tudo por dinheiro? Não, não falo dos participantes. Falo dos que produzem o “espetáculo”. Uma violência simbólica.
Como disse a psicanalista Marisa Minerbo, como na gladiatura romana, o BBB oferece carne humana para nosso repasto.
Como a choldra na arena, hoje o povo vota pelo paredão. Na Roma antiga, era o dedão para cima ou para baixo. Mudou muito?