
Por Felipe Mendes e Raquel Setz, em Brasil de Fato
As ameaças verbais agora passaram a um nível efetivo: Donald Trump afirmou que vai impor tarifas de 10% sobre a importação de produtos de países que se opuserem a seus planos de anexação da Groenlândia, território sob domínio da Dinamarca. Isso impacta diretamente as relações dos Estados Unidos com alguns de seus principais aliados, como França, Reino Unido e Alemanha.
Em conversa com Raquel Setz na edição desta segunda-feira (19) do BdF Entrevista, podcast do Brasil de Fato, o professor, historiador e analista político Fernando Horta afirma que a correlação de forças no cenário internacional pode estar mudando. Países europeus, como a Alemanha, já começam a mudar o discurso em relação à Rússia diante da postura de Trump.
“Os Estados Unidos passam a ser uma ameaça maior do que a própria Rússia. A Rússia tem ali algumas discussões fronteiriças com os países nórdicos que podem ser resolvidas sem maiores problemas, e nunca pensou em invadir a Europa como os Estados Unidos estão fazendo. Então, é uma mudança de mentalidade na geopolítica internacional”, avaliou.
Apesar da relação extremamente cordial e de cooperação mútua entre os EUA e os países da Europa desde o fim da Segunda Guerra, Fernando Horta acredita que Trump possa estar imaginando um cenário de conflito entre eles.
“Talvez ele [Trump] esteja pensando que a Europa pode ficar contra os Estados Unidos. E aí não convém dividir o espaço geográfico com um dos atores que pode potencialmente acabar sendo seu inimigo. Então, o Donald Trump estabelece uma relação com o território que é claramente mediada por uma antecipação de estratégia de guerra”, ponderou o especialista.
Se tomarem para si o território, os Estados Unidos passarão a ter vantagens estratégicas consideráveis caso a possibilidade do confronto seja real — e eventualmente isso aconteça.
“A Groenlândia permitiria aos Estados Unidos um acesso diferenciado ao Ártico, com capacidade de observar a Europa com algumas vantagens de talvez 10, 15 segundos. Nós estamos falando aqui de um conflito que utilizaria mísseis balísticos intercontinentais. E, nessa situação, ganhar 10 segundos, 15 segundos, 20 segundos de visualização antecipada sobre o que o oponente vai fazer, é extremamente importante para os militares”, destacou.
Apesar de seu tamanho (maior que os territórios do México ou da Arábia Saudita, por exemplo), a Groenlândia é um território inóspito, quase todo recoberto de gelo e com meros 57 mil habitantes (se fosse uma cidade brasileira, não estaria nem entre as 500 mais populosas). Foram raros os momentos em que a ilha ocupou as manchetes do noticiário internacional. Até agora.
“O que a gente não sabe é se esse confronto é um objetivo estratégico dos Estados Unidos ou é um devaneio mal organizado de uma mente perturbada e já profundamente doente como a de Donald Trump. Seja o que for, ele está tomando medidas geopolíticas evidentes”, alertou Fernando Horta. “O fato é que ele está movimentando as peças no tabuleiro e o mundo vai ter que reagir a isso”.