
A ameaça de Donald Trump de tomar a Groenlândia marca uma inflexão histórica na política externa dos Estados Unidos e recoloca o país, pela primeira vez em mais de um século, no papel explícito de potência disposta à conquista territorial. A avaliação é do jornalista Peter Baker, correspondente-chefe da Casa Branca do New York Times, em artigo publicado nesta terça (20).
Baker lembra que, desde a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se apresentaram como força de contenção contra agressões territoriais, combatendo regimes expansionistas como a Alemanha nazista, o Japão imperial, a União Soviética, a Coreia do Norte e o Iraque de Saddam Hussein.
Sob Trump, porém, esse paradigma se inverte. O presidente passou a impor tarifas a aliados, ameaçar o uso da força contra a Dinamarca e pressionar países europeus para que aceitem a cessão da Groenlândia — território autônomo cujos habitantes rejeitam a incorporação aos EUA.
A Groenlândia pertence formalmente à Dinamarca, que integra tanto a União Europeia quanto a OTAN. Ainda assim, Trump passou a tratar a posse do território como uma questão de poder e vontade política. Em declarações públicas recentes, afirmou que “de um jeito ou de outro, vamos ficar com a Groenlândia” e ameaçou punir economicamente países que apoiem Copenhague.
Embora assessores tentem enquadrar o discurso como uma questão de segurança internacional, o próprio Trump já deixou claro que sua motivação vai além da estratégia militar.
Em entrevista concedida neste mês ao próprio Peter Baker, para o Times, o presidente foi direto ao admitir o caráter pessoal de seu interesse. Questionado sobre por que seria necessário “possuir” a Groenlândia, e não apenas reforçar a presença militar americana na região, Trump respondeu: “Porque isso é psicologicamente necessário para o sucesso.” Indagado se esse fator psicológico dizia respeito ao país ou a ele próprio, Trump foi ainda mais explícito: “Psicologicamente importante para mim.” Argumentou que pode fazer o que quiser, declarando que os únicos limites ao seu poder global são “a minha própria moralidade” e “a minha própria mente”.
Baker relembra que essa obsessão não é nova. Em uma entrevista concedida em 2021 para o livro “The Divider”, Trump já havia explicado sua lógica com base em sua experiência no mercado imobiliário. Disse que, ao olhar um mapa, via a Groenlândia como um grande “terreno estratégico” que deveria fazer parte dos Estados Unidos, comparando a ilha a um quarteirão indispensável para completar um empreendimento.
O argumento oficial da Casa Branca sustenta que a Groenlândia seria vulnerável à Rússia e à China. No entanto, nenhum dos dois países demonstrou intenção concreta de tomar o território. Pelo contrário, a única ameaça direta à soberania groenlandesa, neste momento, parte de Washington. Os Estados Unidos já mantêm presença militar na ilha desde 1951 e poderiam reforçá-la legalmente a qualquer momento, sem necessidade de anexação.
O jornalista também destaca o impacto simbólico dessa mudança. Forçar um aliado democrático a ceder território sob pressão econômica ou militar violaria tratados internacionais e compromissos assumidos pelos próprios EUA após a Segunda Guerra Mundial, incluindo princípios centrais da Organização das Nações Unidas sobre respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados.
Segundo Baker, a postura de Trump aproxima os Estados Unidos de uma lógica imperial que remete ao século XIX, quando o país expandiu seu território por meio de guerras, anexações e expulsões forçadas. A diferença, agora, é que o alvo não é um inimigo, mas um aliado histórico. Esse deslocamento já produziu reações visíveis: protestos em cidades da Groenlândia e da Dinamarca, manifestações em eventos esportivos internacionais e até comemoração pública por parte da Rússia, que vê a crise como sinal de fratura profunda na aliança transatlântica.
Baker conclui que a ameaça à Groenlândia não é um episódio isolado. Ela se soma a outras ações recentes de Trump, como a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, as ameaças de transformar o Canadá no “51º estado” e o discurso de retomada do Canal do Panamá. Juntas, essas iniciativas desenham um cenário em que os Estados Unidos deixam de ser o principal fiador da ordem internacional para se tornarem, sob Trump, um agente ativo de coerção e expansão.