
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou nesta terça-feira, em Davos, que a Europa “não deve hesitar em usar os instrumentos de que dispõe” para defender seus interesses. A declaração foi feita durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, num momento de desgaste diplomático provocado pela divulgação de mensagens privadas e pela intensificação das ameaças comerciais de Donald Trump, às vésperas do aguardado pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no evento.
Diante de uma plateia atenta, Macron criticou a concorrência norte-americana e afirmou que ela busca “subordinar a Europa”. Segundo ele, o continente precisa resolver seus próprios problemas estruturais, com foco em inovação e aumento do investimento privado em setores estratégicos.
Sem citar Trump nominalmente, Macron deixou recados claros. Abriu o discurso dizendo que vivemos um “tempo de paz, estabilidade e previsibilidade”, frase que arrancou risos do público. Em seguida, afirmou que o mundo se aproxima da “instabilidade e do desequilíbrio” e que o conflito passou a ser tratado como algo normal.
Ao mencionar que 2025 foi marcado por dezenas de guerras, ironizou: “Ouço dizer que algumas delas foram resolvidas”. Mais adiante, voltou ao tema ao afirmar que “não é tempo de novo imperialismo nem de novo colonialismo”, mas de cooperação para enfrentar grandes desafios globais.
“Preferimos respeito a intimidações”, concluiu. “E preferimos o Estado de Direito à brutalidade.”
“Meu amigo, eu não entendo”
O discurso ocorre após Trump divulgar mensagens privadas nas quais Macron demonstra perplexidade com a questão da Groenlândia e com a proposta de um encontro do G7 em Paris, nesta quinta-feira, com a participação de representantes russos à margem das reuniões.
Nas imagens publicadas na rede Truth Social, Macron sugere sediar uma reunião com “ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos” e convida Trump para um jantar em Paris. Em uma das mensagens, escreve: “Meu amigo… eu não entendo o que você está fazendo com a Groenlândia. Vamos tentar construir coisas grandes”.
As mensagens vieram à tona depois de Macron recusar o convite para integrar a iniciativa de Trump chamada “Conselho da Paz”. Em resposta, o presidente norte-americano ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.
“Ninguém o quer, porque ele vai sair do cargo muito em breve”, disse Trump a jornalistas na segunda-feira. “Vou impor tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes dele e ele vai aceitar.”
Antes do discurso em Davos, o Palácio do Eliseu foi direto ao criticar a estratégia tarifária de Trump. Segundo a presidência francesa, tarifas não resolvem problemas globais nem desequilíbrios econômicos. Autoridades descreveram a abordagem como coercitiva, contrária à cooperação e estruturalmente equivocada. Ao mesmo tempo, ressaltaram que os movimentos de Trump reforçam a defesa antiga de Macron pela autonomia estratégica europeia.

Cúpula emergencial e mecanismos de resposta
A participação de Macron em Davos coincide com a cúpula extraordinária da União Europeia marcada para quinta-feira, o mesmo dia em que ele propôs receber Trump em Paris para um jantar e uma reunião ampliada do G7.
Autoridades francesas lideram a reação europeia e defendem a ativação do instrumento anticoerção da UE, um mecanismo de emergência que pode limitar a atuação de empresas dos EUA no mercado europeu.
Na segunda-feira, Trump concordou com a realização de um encontro em Davos durante conversa com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, mas afirmou que não há possibilidade de recuo no controle norte-americano sobre a Groenlândia, que considera essencial para a segurança dos Estados Unidos e do mundo.
No domingo, Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, relacionando suas exigências sobre a Groenlândia ao fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Na mensagem, compartilhada com outros líderes da Otan, afirmou que, “considerando que seu país decidiu não me conceder o Nobel da Paz por eu ter encerrado oito guerras ou mais, não me sinto mais obrigado a pensar apenas na paz”.
Støre respondeu lembrando que o governo norueguês não concede o prêmio, atribuição do Comitê Nobel, órgão independente. O Nobel da Paz de 2025 foi concedido à líder da oposição venezuelana María Corina Machado, que apresentou simbolicamente sua medalha a Trump na Casa Branca na semana passada. Pelas regras do instituto, o título não pode ser transferido, embora medalhas já tenham sido doadas ou vendidas em outras ocasiões.
“Para permanecer livre, é preciso ser temido”
O embate em torno da Groenlândia ocorre após Macron prometer reforçar a presença militar francesa na região do Ártico. Cerca de 15 soldados franceses já participam de exercícios em Nuuk, com reforço previsto de meios terrestres, aéreos e navais.
Em discurso recente na base aérea de Istres, Macron afirmou que 2026 será um ano difícil para a defesa francesa e confirmou planos de gastar € 36 bilhões adicionais entre 2026 e 2030. “Para permanecer livre, é preciso ser temido; e para ser temido, é preciso ser poderoso. Neste mundo brutal, precisamos agir com mais rapidez e força”, declarou.
O discurso de Macron será seguido, nesta quarta-feira, pelo pronunciamento especial de Trump, que deve dominar o fórum, encerrado na sexta-feira. Ainda não está claro se o presidente francês permanecerá em Davos para um possível encontro com Trump, embora fontes próximas não descartem sua participação em discussões sobre a Ucrânia.
Veja trechos do discurso de Macron:
‼️Macron: 'Concorrência por parte dos EUA busca subordinar a Europa, o que é inaceitável'
Além disso, o presidente francês alertou para o ressurgimento das “ambições imperiais” e de “uma mudança para um mundo sem regras, onde a única lei que parece importar é a do mais forte”. pic.twitter.com/fsBqqbhTu7
— RT Brasil (@rtnoticias_br) January 20, 2026
French President Emmanuel Macron told the World Economic Forum that the current global world order is under threat and must be actively reinforced.
He warned that so called “fixed” wars are rapidly increasing and becoming normalized across the world.
Macron wants international… pic.twitter.com/eBSuXVhNkH
— Shadow of Ezra (@ShadowofEzra) January 20, 2026
During a speech at the World Economic Forum in Davos, French President Emmanuel Macron denounces US “competition” which aims to “weaken and subordinate Europe.” pic.twitter.com/fA723BI07r
— Al Arabiya English (@AlArabiya_Eng) January 20, 2026