Sakamoto: Clã do Banco Master criou bilhões em ‘fábricas’ de dinheiro de mentirinha

Atualizado em 21 de janeiro de 2026 às 20:55
Fachada do Banco Master. Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O clã ligado ao Banco Master parece ter descoberto uma alquimia tupiniquim: transformar carniça financeira em filé contábil e fazer brotar créditos de carbono do nada, de Santa Catarina ao Amazonas. Tudo com a bênção tácita de um mercado que prefere não fazer perguntas quando o retorno prometido é obsceno e de um sistema de controle que demorou para agir.

No Norte, a mágica vestia verde. Créditos de carbono e ativos ambientais surgiam em volumes bilionários a partir de empresas desconhecidas do próprio setor, registradas em endereços onde nada funcionava. A informação foi revelada hoje por investigação de Amanda Rossi, no UOL.

Um pequeno armarinho virou, de um dia para o outro, gigante ambiental, saltando de capital social de R$ 100 para R$ 26,6 bilhões. A floresta amazônica, nesse roteiro, deixou de ser bioma e virou álibi contábil. Créditos eram declarados sobre áreas com disputas fundiárias, assentamentos sobrepostos e pendências legais que, em tese, inviabilizariam qualquer certificação séria. No papel, porém, tudo florescia.

No Sul, o milagre vinha de um banco morto. Papéis do antigo Besc, liquidado há quase duas décadas, eram comprados a preço de bala Juquinha e reapareciam nos balanços inflados como se fossem barras de ouro. Títulos sem valor prático ou liquidez real eram tratados como riqueza sólida, negociados como ativos valiosos. A investigação foi publicada no último dia 9 por Amanda Rossi e Natália Portinari, também no UOL.

Era a versão gourmet da nota falsa: ninguém tentava passá-la no mercadinho da esquina, mas em operações que chegavam a dezenas de bilhões de reais. Uma riqueza fantasma criada que podia alavancar crédito, enganar investidores e, de quebra, lavar dinheiro.

O fio condutor entre o Sul dos papéis podres e o Norte dos créditos fantasmas passava pelo clã do Banco Master. Fundos da Reag, suspeitos de participar de fraudes no banco e de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital, inflaram papéis do antigo Besc.

E Henrique Vorcaro, pai de Daniel, dono do banco, é um dos principais investidores das empresas Global Carbon e Golden Green, registradas com valor declarado de R$ 40 bilhões, sob suspeita de terem inflado artificialmente seu capital.

Formou-se um ecossistema em que empresas e fundos ligados à família negociavam entre si, inflavam valores, retroagiam aumentos de capital e criavam a ilusão de patrimônio. O dinheiro não vinha da produção, do trabalho ou da inovação, mas de uma contabilidade criativa que fazia “valor” surgir da esperteza.

Nada disso aconteceu no escuro. Passou por auditorias, relatórios, carimbos e apresentações sofisticadas. Reguladores foram alertados, processos foram abertos, mas o sistema seguiu funcionando tempo suficiente para que bilhões circulassem.

Ao mesmo tempo, o discurso da devida diligência, repetido como mantra em eventos da Faria Lima, revelou-se peça decorativa. Quando a taxa de retorno é alta, a curiosidade moral costuma ser baixa.

Agentes da Polícia federal, em conjunto com as receitas federal e estadual fizeram buscas e apreensões em endereços na Faria Lima. Foto: Werther Santana/Estadão

O mais perverso não é apenas a ousadia do esquema, mas quem paga a conta quando a fantasia desmorona: fundos de pensão de servidores públicos, investidores comuns, mecanismos públicos de garantia e, no limite, a sociedade inteira. O prejuízo é socializado, enquanto os lucros são privatizados e blindados em estruturas empresariais complexas.

O clã do Banco Master parece estar envolvido em uma fábrica nacional de dinheiro falso. Um Brasil em que ativos inexistentes viram bilhões no papel e em que o crime financeiro não apenas compensa: vira case, até o dia em que o cheiro da carniça se torna impossível de ignorar.

Por fim, o escândalo não expõe apenas um clã audacioso, mas falhas nos mecanismos públicos de fiscalização e controle, que assistiram a essa fábrica de dinheiro falso operar à vista de todos. Banco Central, CVM, certificadoras, auditorias e demais estruturas de garantia chegaram atrasados — ou aparecem mais como figurantes.

Fiscalizar de verdade custa dinheiro, capital político, enfrenta elites econômicas e interrompe festas onde reguladores e regulados costumam brindar juntos. Mas é preciso.