De olho no Planalto, Tarcísio evita Bolsonaro e marca reuniões com marqueteiros

Atualizado em 22 de janeiro de 2026 às 7:31
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foto: Reprodução

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), intensificou articulações nacionais, passou a se reunir com empresários da Faria Lima e iniciou sondagens com marqueteiros enquanto evita se comprometer com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nesse contexto, Tarcísio também adiou uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso na Papudinha, movimento interpretado por aliados como parte de um cálculo ligado à corrida ao Planalto, conforme informações do Globo.

As movimentações do governador ocorrem em meio à resistência de setores da direita ao nome de Flávio e foram lidas por aliados como uma retomada da tentativa de viabilização presidencial de Tarcísio, ainda que ele repita publicamente que disputará a reeleição em São Paulo.

No entorno do governador e de Bolsonaro, a avaliação é que os gestos se tornaram mais explícitos nas últimas semanas, chamando a atenção do senador.

Segundo interlocutores, Flávio pretendia usar a visita de Tarcísio ao pai para reforçar que a candidatura presidencial estaria fora de cogitação e que a reeleição em São Paulo seria central para o bolsonarismo.

Após essa sinalização, o governador desmarcou a ida, gesto visto como uma tentativa de não se comprometer com a estratégia eleitoral do senador. Antes do recuo, Tarcísio havia dito que ficava “satisfeito com a oportunidade de ver um amigo”.

Visita partiu de Bolsonaro

A iniciativa do encontro foi do próprio Bolsonaro. Tarcísio foi informado antes de a defesa pedir autorização ao Supremo Tribunal Federal, concedida pelo ministro Alexandre de Moraes. O cancelamento gerou reação entre aliados do ex-presidente.

“Fica realmente difícil entender. Milhões de brasileiros até pagariam para ter essa oportunidade”, afirmou o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo.

O governo paulista reiterou que Tarcísio será candidato à reeleição e que a viagem foi cancelada por compromissos já agendados.

Tarcísio ao lado de Flávio e Jair Renan em visita a Bolsonaro em prisão domiciliar. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

Centrão, mercado e cálculo político

Integrantes do Centrão, bloco que ainda resiste à candidatura de Flávio, avaliam que Tarcísio entrou tarde no jogo nacional e tenta recuperar espaço. Dirigentes próximos ao governador não viam ganhos políticos na visita e alertaram para o risco de associação precoce à estratégia da família Bolsonaro.

“Quanto mais a visita for adiada, melhor”, resumiu um representante do grupo.

Esse movimento é influenciado por setores empresariais, pelo mercado financeiro e por lideranças evangélicas. Segundo interlocutores, participam da articulação nomes próximos a Bolsonaro, como o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten.

Empresários e sondagens eleitorais

Tarcísio deve se reunir nas próximas semanas com empresários que estiveram com Flávio no mês passado. O entorno do governador espera a presença de Flávio Rocha, Richard Gerdau, Alexandre Ostrowiecki e Mario Araripe. Eles foram procurados e não comentaram.

Na Faria Lima, persiste a desconfiança sobre a competitividade de Flávio contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobretudo por causa da rejeição de 55%, contra 43% de Tarcísio. A leitura é que o governador teria mais margem para ampliar o eleitorado.

Marqueteiros no radar

O governador também avançou na frente estratégica. Segundo interlocutores do Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio buscou conversas reservadas com marqueteiros para discutir cenários e testar hipóteses.

Três nomes passaram pelo radar: Lula Guimarães, Duda Lima e Paulo Vasconcelos, hoje na pré-campanha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. As consultas são descritas como preliminares, sem tratativas formais.

“Limites e obstáculos”

Aliados do governador evitam movimentos mais explícitos para que ele não seja rotulado como “traidor” no bolsonarismo. O principal obstáculo segue sendo o aval de Bolsonaro a Flávio.

“Flávio já está muito forte nas pesquisas e Tarcísio não vai disputar contra Bolsonaro”, afirmou o presidente do PP, Ciro Nogueira.

A avaliação se apoia em dados recentes da Quaest, que mostram Lula na liderança, com Flávio entre 23% e 32% no primeiro turno, além do prazo curto para uma reviravolta.