
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Tarcísio de Freitas tem 73 dias (pouco mais de dez semanas) para convencer Jair Bolsonaro de que não o abandonará caso migre dos Bandeirantes para o Planalto e que pedirá orientação para governar o país. Mais do que isso: o governador precisa levar Bolsonaro a trocar seu primogênito por ele para disputar a eleição contra Lula. Impossível, não é. Mas também não é simples como botar um boné do Trump.
O dia 4 de abril, seis meses antes do primeiro turno, é a data limite para ele se desincompatibilizar, ou seja, renunciar ao cargo de governador a fim de disputar a Presidência da República. Se quiser tentar a reeleição, isso não é preciso.
No lance mais recente, o governador afirmou a jornalistas que visitaria Jair na Papudinha. O senador Flávio avisou que Tarcísio ouviria do pai que “eleições presidenciais estão descartadas para ele” e que a reeleição em São Paulo é “fundamental” para a estratégia de derrotar o PT. Se fosse um episódio de Carga Pesada, ouviríamos Antônio Fagundes gritar: “é uma cilada, Bino”. Tarcísio, claramente incomodado, refugou.
Antes disso, Michelle Bolsonaro e o governador surgiram na imprensa como concierges do ex-presidente, tendo articulado no STF a mudança de Jair da carceragem da Superintendência da PF no Distrito Federal para uma cela de 65 m², incluindo área ao ar livre, na Papudinha. Apesar de os dois dizerem que não estão brigando por uma candidatura à Presidência, todo esse bailado diz outra coisa.
Como venho dizendo, há um Game of Thrones no clã Bolsonaro, entre os filhos do ex-presidente e a madrasta, não apenas pelo legado do patriarca, mas também pelo próprio sentido do bolsonarismo.
No lance anterior, antes de ser operado no Natal, Jair Bolsonaro escreveu uma carta de próprio punho reafirmando Flávio como o seu herdeiro político e candidato em 2026. O gesto lembrou aqueles momentos do seriado da HBO em que a palavra do antigo monarca, mesmo enfraquecido e apagado, tenta controlar o tabuleiro, mas desperta rancores dentro de casa e que com seus súditos mais próximos.
Ao ungir Flávio como sucessor, Bolsonaro botou mais fogo na disputa pela herança simbólica do bolsonarismo. E, como em Westeros, essas disputas nunca passam sem guerra.
Enquanto os príncipes se alinhavam, a rainha consorte também se mexia. Michelle, que nunca quis papel decorativo e também almeja o poder, vem tendo um protagonismo público que, para os enteados, soa como insubordinação ao pai — e, claro, a eles. Em qualquer corte medieval, isso seria lido como um desafio direto: não basta agir em nome do rei ausente, é preciso disputar quem interpreta sua vontade.

Nem bem Jair se ambientou à carceragem da PF e a crise sucessória já havia se instalado no clã. Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro haviam criticado Michelle por atacar a construção da aliança com Ciro Gomes. Ele pode concorrer ao governo do estado com o apoio da direita para impedir a reeleição do petista Elmano de Freitas e dificultar votos em Lula. Depois de visitar Bolsonaro, Flávio pediu desculpas publicamente a madrasta, colocou panos quentes no caso, mas anunciou que seu pai endossara a sua pré-candidatura, deixando centrão e Faria Lima chokitos.
A diretora do PL Mulher vem aparecendo bem colocada em pesquisas de opinião como possível candidata à Presidência da República ou mesmo à vice em uma chapa capitaneada pelo governador Tarcísio de Freitas. Engoliu mal a decisão do marido que também é uma forma de emparedá-la. Ah, mas quem imaginaria que Jair tentaria cortar as asas de sua esposa?
A entrada de Flávio como pré-candidato se inseriu em uma estratégia para forçar o centrão (que tem o governador paulista como seu preferido) a aprovar uma anistia ou, ao menos, uma redução significativa da pena do ex-presidente. O PL da Dosimetria, que trata do segundo ponto, foi aprovado, vetado por Lula, terá seu veto derrubado pelo Congresso e verá a palavra final ser dada pelo STF.
Mas não só isso: Bolsonaro teme que, uma vez eleita, qualquer outra pessoa que não seja um de seus filhos lhe dê às costas e ele apodreça na cadeia. Pior: tire dele a posição de principal líder de direita. Afinal, rei morto, rei posto.
Flávio passou a aparecer em alguns institutos de pesquisas como o nome da direita com mais intenções de votos no primeiro turno e alcançando os mesmos números de governadores da direita no segundo. Isso animou a sua militância (e a do lulismo, que vê nele um candidato mais fácil de ser batido) e desanimou o centrão e a Faria Lima.
Como escrevi aqui no mês passado, caso Flávio se mantenha até a eleição (lembre-se, como o Brasil não é para amadores), o governador Tarcísio de Freitas terá chamado Alexandre de Moraes de tirano, incitado a turba bolsonarista contra as instituições em carro de som na avenida Paulista e vestido um boné com o lema de Donald “Tarifaço contra empregos e empresas no Brasil” Trump à toa.
E mesmo com todos esses gestos à extrema direita, o governador ainda é visto como um oportunista pela ala do bolsonarismo-raiz que não costuma usar garfo e faca.
Tarcísio sabe que o clã não é confiável. Se Flávio der para trás, vale a pena deixar uma reeleição mais fácil ao Palácio dos Bandeirantes, confiar na palavra do padrinho e se desincompatibilizar em 4 de abril? E se, depois, Bolsonaro voltar atrás novamente?
A temporada de Game of Thrones do bolsonarismo está apenas começando.