Em VÍDEO vazado, Delcy Rodríguez diz que cedeu aos EUA após ameaça de morte: “Deram 15 minutos”

Atualizado em 24 de janeiro de 2026 às 10:28
Delcy Rodriguez, presidenta da Venezuela

Um vídeo vazado de uma reunião interna do governo venezuelano revela como a cúpula do chavismo reagiu nos bastidores após a operação dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro. O material, gravado cerca de sete dias depois da ação americana e divulgado pelo coletivo jornalístico La Hora de Venezuela, expõe relatos diretos de ameaças, negociações com Washington e a preocupação central em manter o controle político do país.

Na gravação, o então ministro da Comunicação, Freddy Ñáñez, aparece conduzindo uma reunião com influenciadores alinhados ao regime. Em determinado momento, ele coloca o celular no viva-voz para que todos ouçam Delcy Rodríguez, que havia assumido interinamente o comando da Venezuela após a retirada de Maduro do poder. Logo no início da fala, ela pede coesão interna. “A única coisa que eu peço é unidade”, afirma.

Rodríguez relata que, no momento da captura de Maduro pelas forças americanas, ela, o ministro do Interior, Justiça e Paz Diosdado Cabello e Jorge Rodríguez, irmão de Delcy, receberam um ultimato. “Desde o primeiro minuto em que sequestraram o presidente, começaram as ameaças. Deram a Diosdado, a Jorge e a mim 15 minutos para responder, ou nos matariam”, diz.

Segundo ela, os militares americanos chegaram a informar inicialmente que Maduro e a esposa, Cilia Flores, teriam sido assassinados. “Dissemos que estávamos prontos para compartilhar o mesmo destino”, afirma.

Ainda na ligação, Delcy Rodríguez admite que a decisão de ceder às exigências dos Estados Unidos foi tomada sob pressão constante. “As ameaças e chantagens são constantes, e precisamos agir com paciência e prudência estratégica”, declara. Em seguida, enumera os objetivos do governo interino: “Preservar a paz, resgatar nossos reféns e preservar o poder político”.

Antes de passar a palavra a Rodríguez, Freddy Ñáñez tenta protegê-la das críticas internas. Ele pede o fim de “fofocas, rumores, intrigas e tentativas de desmoralização” e afirma que a dirigente é “a única garantia” de que o chavismo pode “trazer de volta o presidente e a primeira-dama” e reorganizar suas forças.

Em outro trecho, Ñáñez orienta os influenciadores a terem cuidado com “puristas” que podem acusar o governo de traição. “Vão aparecer dizendo que estamos entregando o país, a revolução”, afirma.

O ministro também sustenta que medidas como o controle americano sobre o petróleo venezuelano não representam derrota. “Tudo o que está acontecendo hoje é simplesmente o plano que Maduro colocou sobre a mesa. Não é concessão nem presente”, diz. “Vender petróleo aos EUA sempre foi nosso plano.”

O vídeo sugere que integrantes do alto escalão já mantinham conversas com representantes americanos antes da operação, o que alimenta o temor de serem vistos como traidores dentro do movimento.

A gravação foi feita por uma plataforma de videoconferência, com parte dos participantes presentes fisicamente e outros conectados à distância. Não se sabe como o material vazou.

Publicamente, Delcy Rodríguez não voltou a repetir a acusação de ameaça de morte. Nesta semana, afirmou que mantém diálogo com Washington. “Estamos em um processo de trabalho com os Estados Unidos, sem medo, para enfrentar nossas diferenças por meio da diplomacia”, disse, sinalizando disposição para cooperar com o governo Trump.

Desde o ataque americano, o regime venezuelano adota um discurso agressivo contra os EUA nas redes sociais, enquanto cumpre, na prática, as exigências de Washington. “O que o governo venezuelano está realmente negociando é como salvar a própria pele”, afirma López Maya.

Dias após o vazamento, Freddy Ñáñez foi deslocado para o Ministério do Meio Ambiente em uma reforma ministerial. Seu sucessor na Comunicação criou novas frentes digitais para “defender a verdade sobre a Venezuela”.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.