
A troca pública de acusações entre lideranças evangélicas expôs fissuras profundas no campo religioso-conservador às vésperas da eleição de 2026 e revelou um cenário de fragmentação que vai além de disputas pessoais. O embate envolvendo o pastor Silas Malafaia, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o pastor André Valadão se tornou um retrato da dificuldade de unificação do segmento em torno de um projeto político comum, especialmente diante da indefinição sobre quem liderará a direita no próximo pleito presidencial.
A crise ganhou visibilidade quando Malafaia acusou Damares de ser “leviana linguaruda” por afirmar que “grandes igrejas” estariam envolvidas em “falcatruas” investigadas pela CPMI do INSS, sem citar nomes. A senadora reagiu divulgando publicamente as igrejas e pastores citados na comissão e respondeu que Malafaia faria bem em “orar um pouco”.
Entre os nomes mencionados estava o de André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, que reagiu em vídeo atacando o que chamou de “a fofoca nessa língua do capeta” e classificando como “inadmissível você falar da igreja do outro”.
O episódio ocorreu na esteira do escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e seu cunhado Fabiano Zettel, então pastor da Lagoinha, afastado após o caso vir à tona. Para parte do meio evangélico, a fala de Damares representaria um movimento de “saneamento” do campo. Para outros, o episódio simboliza fogo amigo que fragiliza a direita e expõe disputas internas que antes ficavam restritas aos bastidores.
As divergências não se limitam à CPMI. A possível candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência escancarou a falta de consenso entre lideranças religiosas influentes. Malafaia já declarou publicamente que considera Flávio fraco eleitoralmente. “Eu disse a ele: não sou covarde, você não tem musculatura”.
A maioria dos grandes nomes do evangelicalismo prefere uma chapa encabeçada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), com Michelle Bolsonaro (PL) como vice.
Damares, por outro lado, assumiu posição clara em favor do filho mais velho de Jair Bolsonaro e prometeu empenho para levar evangélicos à campanha. O deputado Marco Feliciano (PL-SP) tentou atuar como mediador e aconselhou Flávio a dialogar com Malafaia, a quem chamou de “voz política mais relevante da nação”.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Feliciano afirmou enxergar “pontos isolados de discussão”, mas avaliou que o grupo está “mais unido do que nunca”.
Nos bastidores, porém, líderes admitem que a unidade está longe de ser automática. Caso Bolsonaro insista no filho, a tendência seria Tarcísio buscar a reeleição em São Paulo, abrindo espaço para um cenário de adesão pragmática. O bispo Robson Rodovalho, que prestará “assistência religiosa” a Bolsonaro, afirmou que conversará com Flávio nos próximos dias. “Não podemos nos dividir. A direita tem que entrar junta”.
A desunião também ficou evidente na reação à indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF. O senador Magno Malta (PL-ES) se posicionou contra e escreveu no Pleno News: “Identidade religiosa não é salvo-conduto ético. O povo de fé tem discernimento. Sabe distinguir convicção de conveniência. Em Messias, tudo cheira a conveniência”.
Outros líderes seguiram caminho oposto. O bispo Samuel Ferreira publicou foto ao lado de Lula e de Messias com a legenda “Jorge Messias, Deus é contigo”.
O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), hoje mais próximo do governo Lula, também criticou Malafaia e o definiu como alguém “com poucos amigos e muitos reféns”, sugerindo que o pastor intimida colegas.
Para o pesquisador André Ítalo Rocha, autor de “A Bancada da Bíblia: Uma História de Conversões Políticas”, o conflito entre Malafaia e Damares é antigo. “O atrito começou em 2018, depois da eleição de Bolsonaro”, lembra. Segundo ele, a escolha de Damares para o Ministério da Família, preterindo Magno Malta, foi vista como traição e inaugurou uma disputa que agora reaparece de forma pública e ruidosa.