Sakamoto: PF vai atrás de quem torrou no Master a grana dos aposentados do Rio

Atualizado em 24 de janeiro de 2026 às 21:27
Fachada do Banco Master. Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Com a Polícia Federal indo atrás de chefes do fundo de previdência dos servidores públicos do Rio de Janeiro, que queimou quase R$ 1 bilhão em investimentos no Master quando o banco já era visto como uma piada no mercado financeiro, talvez os servidores públicos tenham uma chance de entender quem jogou fora parte da grana de suas aposentadorias. E tomar decisões eleitorais.

Deivis Antunes, presidente da Rioprevidência, Euchério Rodrigues, diretor de investimentos, e o ex-gerente Pedro Leal estão entre os alvos de uma operação hoje. A informação é de Fábio Serapião, do UOL. O Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro está sob responsabilidade do governo Cláudio Castro (PL), que não é alvo da operação.

A ação investiga a “suspeita de operações financeiras irregulares que expuseram o patrimônio de autarquia responsável pela gestão das aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro a risco elevado e incompatível com sua finalidade”.

Da quadrilha que roubou o INSS, passando pela tungada no caso Master até novas propostas de reforma da previdência que só lascam o andar de baixo, os aposentados não têm um momento de sossego no Brasil.

A questão é exatamente a finalidade do investimento realizado nas letras financeiras. A escolha de uma instituição já duvidosa como o Master foi técnica (barbeiragem) ou política (sacanagem)? Foi para inflar o patrimônio do fundo de forma irresponsável ou o governo Castro fez isso para ajudar os controladores do banco, que têm muitos amigos na política?

Enquanto a grana evaporava dos investimentos de fundos de pensão, Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele compraram mansões, apartamentos e jatinhos no valor de R$ 2 bilhões, enquanto sua instituição apodrecia em praça pública. A apuração sobre a compra de patrimônio de superluxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário aqui no UOL.

Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

O Rio de Janeiro de Cláudio Castro não é o único que colocou grana pesada de fundo de pensão no Master. O Amapá de Clécio Luís (Solidariedade) investiu R$ 400 milhões em títulos de risco. Isso sem falar em um rosário de prefeituras que fez o mesmo, como a aprazível São Roque.

Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada. Esse pessoal que continua pobre porque não têm, segundo muitos coaches, o mindset correto.

A Rioprevidência e o Amprev do Amapá disseram que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido aos segurados, mesmo com a liquidação do Banco Master. A questão é quem assume o tamanho do prejuízo.

Há gente crescida no leite com pera defendendo que o rombo seja coberto pela União (ou seja, por nós, contribuintes), tal como deve ocorrer com o Banco de Brasília, que torrou bilhões com o Master.

Em tese, a grana que o Master mamou de fundos de estados e municípios pode ser (parcialmente) recomposta com a venda do patrimônio de Vorcaro e das empresas relacionadas a ele, quando for comprovado que existem apenas para protegê-lo em momentos como este.

Digo parcialmente porque há dinheiro que evaporou ou foi embora na descarga da privada após festas de luxo.

Mas há gente que parece não querer permitir o abatimento do prejuízo, protegendo o patrimônio dos sócios do banco. Até porque um Vorcaro que fique pobre ou preso é um Vorcaro que canta alto em tom de delação premiada.

E uma possível delação estaciona um caminhão de explosivos na garagem do Congresso, mas não só lá. Afinal, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político e jurídico.

Como já disse aqui, o país não pode aceitar que a grana de quem trabalhou a vida inteira vire piscina aquecida, hangar e camarote VIP sem consequência real, o que significaria tratar banqueiro como uma casta acima da lei.

Blindar patrimônio, atrasar liquidação, impedir venda de bens e socializar prejuízo é escolher, conscientemente, proteger mansões e jatinhos em detrimento de quem se lascou para construir o país.