
O Waze se tornou um dos aplicativos de navegação mais populares do mundo ao apostar em informações colaborativas em tempo real. Engarrafamentos, acidentes e blitz policiais são reportados por motoristas e imediatamente compartilhados com outros usuários. O que muita gente ignora é que, a cada toque no botão de “reportar”, o aplicativo também divulga dados sensíveis que permitem rastrear pessoas com alto grau de precisão.
Não se trata de uma falha de segurança ou de um erro pontual. O próprio funcionamento do sistema torna públicos o nome de usuário, a localização exata e o horário de cada alerta enviado. Esses dados ficam disponíveis no mapa web do Waze e podem ser coletados de forma automatizada. Com paciência e programação básica, é possível montar um sistema capaz de acompanhar os deslocamentos de indivíduos em dezenas de países.
Cada relatório enviado pelo aplicativo contém coordenadas de GPS, registro de tempo em milissegundos, tipo de ocorrência e o nome do usuário que fez a notificação. Quando esses registros são encadeados, eles revelam rotinas diárias, trajetos frequentes, locais de moradia e de trabalho. Em poucos dias, já é possível traçar um perfil detalhado de mobilidade de qualquer pessoa que use o recurso de forma recorrente.
O Waze impõe limites técnicos para dificultar coletas massivas, restringindo o número de alertas retornados por consulta. Ainda assim, essas barreiras podem ser contornadas ao dividir grandes cidades em pequenas áreas e consultar cada uma delas a cada poucos minutos. Com esse método, é possível capturar a maioria dos alertas gerados em grandes centros urbanos, de forma contínua.
Um ponto crítico envolve os nomes de usuário. Muitos motoristas escolhem identificações pessoais, frequentemente iguais às usadas em redes sociais. Isso facilita a associação do perfil do Waze a nomes reais, fotos, empregos e históricos públicos. Mesmo usuários com nomes automáticos gerados pelo sistema podem ser identificados cruzando padrões de deslocamento com registros públicos e outras bases abertas.
Especialistas alertam que esse tipo de dado tem alto valor para investigações, vigilância privada e até operações de inteligência. É possível monitorar áreas sensíveis, como embaixadas, bases militares, sedes de governo ou empresas estratégicas, e identificar quem passa com frequência por esses locais. O risco é ainda maior para políticos, jornalistas, ativistas, executivos, agentes públicos e pessoas que já sofrem ameaças ou perseguições.
O problema se amplia quando esses dados são combinados com câmeras de trânsito disponíveis em sites públicos. Como os alertas do Waze são registrados com precisão de tempo, é teoricamente possível identificar o veículo que fez a notificação em imagens de câmeras próximas, chegando até ao proprietário do carro por meio de placas e registros oficiais.
A coleta desse tipo de informação não se limita a um país. O Waze opera em mais de 60 nações, o que torna possível a construção de um banco de dados global de deslocamentos urbanos. Segundo o autor da análise, o objetivo foi demonstrar o alcance do problema e pressionar a empresa — hoje controlada pelo Google — a rever escolhas de design que sacrificam a privacidade dos usuários.
Enquanto não há mudanças, especialistas recomendam cautela. Evitar o envio de alertas, não usar nomes personalizados, reduzir padrões previsíveis de uso ou optar por outros aplicativos de navegação são algumas das formas de diminuir a exposição. O alerta central é claro: ao colaborar com o trânsito, o usuário pode estar, sem saber, transmitindo muito mais do que imagina.
— harry (@Harrris0n) January 22, 2026