Sakamoto: Nikolas reúne 18 mil em Brasília, mas é ofuscado por raio que deixa feridos

Atualizado em 25 de janeiro de 2026 às 22:31
Nikolas Ferreira na caminhada até Brasília, durante a chuva em 23.01.2026. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Duas notícias merecem destaque sobre o ato bolsonarista ocorrido hoje em Brasília que, formalmente, teve como objetivo exigir a anistia a Jair Bolsonaro e aos condenados pela tentativa de golpe de Estado: um raio que feriu dezenas de participantes e a grande multidão reunida, que fortalece o projeto presidencial de Nikolas Ferreira para 2034 — ou 2030, se a lei permitir.

Primeiro, o tamanho da manifestação. O ato, realizado na Praça do Cruzeiro, reuniu cerca de 18 mil pessoas, segundo contagem do Monitor do Debate Político, ligado à Universidade de São Paulo e ao Cebrap, e da ONG More in Common, realizada a partir de fotos aéreas analisadas com inteligência artificial.

Pode não parecer muito para as manifestações de São Paulo ou do Rio, mas é grande para a capital federal. Vale lembrar que o primeiro ato convocado para Brasília após a prisão de Jair reuniu apenas algumas dezenas de pessoas em frente ao Museu Nacional em 30 de novembro. E, no dia 7 de outubro, foram apenas algumas centenas em um protesto pela anistia que atravessou a Esplanada dos Ministérios, menor do que a maioria dos bloquinhos de Carnaval.

O ato deste domingo foi a conclusão de uma marcha de 240 quilômetros liderada pelo deputado federal do PL a fim de chamar a atenção para a liberdade do ex-presidente e a coroação de uma narrativa de martirização, que fez sucesso em determinados grupos da extrema direita, com imagens de pés inchados e sofrimento dos participantes.

A via foi fechada e apenas carros que participam da manifestação podem passar. Foto: Poder 360

A marcha, se não roubou a atenção do grande público, mais preocupado com as tiradas da Ana Paula no Big Brother, atiçou a atenção do bolsonarismo-raiz nos últimos dias.

Dessa forma, o mineiro faz uma demonstração pública de força na disputa pelo espólio político de Jair. Sim, o Game of Thrones, que tomou conta do clã Bolsonaro desde a prisão do patriarca, não se limita à querela entre Flávio, Eduardo e Carlos, de um lado, e Michelle, com o apoio de Tarcísio de Freitas, do outro. Também tem espaço para quem não está disputando a candidatura ao Planalto agora e pensa na herança de longo prazo.

E Nikolas marcou pontos importantes nesse sentido. Em 2034, ele terá idade para disputar a Presidência da República — se a Constituição não for alterada antes disso para permitir candidaturas antes dos 35 anos.

Mas o bolsonarismo não contava que as forças da natureza jogassem contra o roteiro planejado para hoje.

Antes de Nikolas e seus parceiros de caminhada chegarem, ao menos 30 pessoas foram enviadas a hospitais após um raio atingir o ato. Sim, um raio. No total, 72 pessoas foram atendidas no próprio local, segundo informação do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal.

Teve pessoas que desmaiaram, outras gritavam de dor pedindo ajuda, apelos da organização para que ninguém tocasse nas grades de metal. Apesar disso, os feridos pelo raio não foram mencionados no discurso de Nikolas, segundo o relato de Isabela Aleixo e Felipe Pereira, que acompanharam o ato pelo UOL.

Um ato bolsonarista pedindo anistia é algo que se vê com frequência. Mesmo maior que os últimos e puxado por uma liderança ascendente, é notícia de menor impacto do que um raio “cair do céu” em cima de uma manifestação. Por isso, a descarga ganhou destaque em veículos de imprensa de dentro e fora do país.

Bolsonaristas correram para dizer nas redes que isso era mais uma provação, como as sofridas por Jó, no Velho Testamento. Já críticos à manifestação falaram de “sinal divino” contra o ato. Ou seja, o sentido do raio entrou em disputa.

O que importa, contudo, é que os feridos se recuperem rapidamente. Debate político não se faz com o desejo de aniquilação do outro. Mas também boa sorte à nossa democracia. Este começo de 2026 mostra que vamos precisar.