Justiça por Orelha: o que se sabe sobre morte de cão ‘comunitário’ em praia de SC

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 8:34
O cachorro Orelha, encontrado após ser agredido. Foto: reprodução

A morte do cachorro comunitário conhecido como Orelha, que vivia há cerca de uma década na Praia Brava, no Norte de Florianópolis, provocou forte comoção em Santa Catarina e mobilizou moradores, entidades de proteção animal, artistas e autoridades públicas. O caso ganhou repercussão após a Polícia Civil identificar ao menos quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões que levaram à morte do animal, considerado um símbolo de convivência comunitária no bairro.

Segundo relatos de moradores, Orelha desapareceu por alguns dias até ser encontrado ferido e agonizando durante uma caminhada feita por uma das pessoas que cuidavam do cachorro. O animal foi recolhido e levado a uma clínica veterinária, mas, diante da gravidade das lesões, os profissionais decidiram pela eutanásia.

Em entrevista à NSC TV, o empresário e morador da região Silvio Gasperin relatou o momento do resgate e cobrou responsabilização. “A Fátima ficou sabendo, mas não encontrou ele de imediato. Em uma caminhada, achou ele jogado e agonizando. Recolheu, levou ao veterinário… precisa de justiça, né?”, disse, emocionado.

Orelha era um dos três cães comunitários da Praia Brava, que contam com casinhas e cuidados permanentes de moradores. O aposentado Mário Rogério Prestes afirmou que assumia a alimentação diária dos animais. “Muita gente vinha trazer comida para eles, mas eu era o responsável por alimentá-los todos os dias. Eles não podiam ficar sem comida e sem cuidado”, contou.

A empresária Antônia Souza, que passeava com a cadela Cristal pela região, destacou a integração dos cães com a comunidade. “Eles conviviam com a gente. Eles tinham uma vida na Praia Brava. Todo mundo que mora aqui, ou vem com frequência, sabe de quem estamos falando: os ‘pretinhos'”, afirmou.

Em nota divulgada na sexta-feira (17), a Associação de Moradores da Praia Brava reforçou o vínculo afetivo com o animal. “Orelha fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos e era cuidado espontaneamente pela comunidade, tornando-se um símbolo simples, porém muito querido, da convivência e da relação de cuidado que muitos mantêm com o espaço e com os animais que aqui vivem”.

A investigação conduzida pela Polícia Civil identificou quatro adolescentes suspeitos após análise de câmeras de segurança e depoimentos. Também é apurada a denúncia de que um policial civil, pai de um dos suspeitos, teria coagido uma testemunha.

A delegada responsável, Mardjoli Valcareggi, afirmou que a informação está sendo investigada, mas negou qualquer envolvimento de policial no crime. Segundo ela, todos os possíveis envolvidos já foram identificados e o inquérito segue em andamento.

Desde a confirmação da morte, protestos vêm sendo realizados na Praia Brava. No sábado (17) e novamente no sábado (24), moradores organizaram caminhadas com camisetas e cartazes com a frase “Justiça Por Orelha”, acompanhados de seus cães, além de uma oração em homenagem ao animal.

A mobilização se estendeu às redes sociais, com a hashtag #JustiçaPorOrelha, e ganhou apoio de artistas, como a atriz Luana Piovani, que divulgou as imagens dos suspeitos, mesmo protegidos pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

No domingo (25), as atrizes Heloísa Périssé e Paula Burlamaqui publicaram vídeos cobrando providências. “Quem faz isso com um animal inocente, por um simples querer, tende a repetir esse modelo de violência com outros seres vivos. A gente precisa estar atento a isso”, disse uma delas.

Também no domingo (25), o Ministério Público de Santa Catarina informou que acompanha o caso por meio das promotorias da Infância e Juventude e do Meio Ambiente. O governador Jorginho Mello (PL) afirmou nas redes sociais que a investigação segue em curso e que a redistribuição do processo ocorreu após a juíza responsável se declarar impedida.

“A nossa Polícia Civil fez diligências, colheu provas e solicitou à Justiça mandados alguns dias após o início da investigação. As provas já estão no processo e me embrulharam o estômago”, escreveu.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.