Trump recua em Minneapolis e ‘líder nazi’ do ICE é transferido junto com outros agentes

Atualizado em 27 de janeiro de 2026 às 6:36
Gregory Bovino

A execução de Alex Pretti, enfermeiro de UTI e cidadão americano morto a tiros por um agente da Patrulha de Fronteira no último fim de semana, colocou Donald Trump diante de um problema que vai além da tragédia em si: a insustentabilidade política, operacional e simbólica da ofensiva federal em Minneapolis.

Segundo integrantes do governo e aliados do presidente, Trump ficou “preocupado” com os efeitos da morte e com a imagem de uma cidade ocupada por forças federais armadas até os dentes.

A reação pública, amplificada por vídeos que circulam amplamente nas redes sociais e desmontam a versão oficial, forçou a Casa Branca a promover ajustes emergenciais. Embora o discurso de endurecimento migratório continue intacto, a forma como ele vem sendo executado passou a ser vista como um passivo político até mesmo dentro do campo republicano.

As mudanças anunciadas na segunda-feira indicam um recuo tático: troca de comando da operação, possível redução do número de agentes federais, tentativa de reaproximação com autoridades democratas de Minnesota e um esforço explícito para distanciar Trump das falas mais radicais de seus próprios auxiliares.

Pretti, de 37 anos, foi morto durante um confronto envolvendo agentes federais e moradores que protestavam contra a escalada da repressão migratória na cidade. Logo após o episódio, autoridades do governo Trump correram para enquadrar o enfermeiro como ameaça: o chefe da Patrulha de Fronteira, Greg Bovino, e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmaram que ele teria “brandido” uma arma e tentado “massacrar” agentes.

O vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, foi ainda mais longe, chamando Pretti de “terrorista doméstico”.

As imagens gravadas por testemunhas, porém, não sustentam essa narrativa. Vídeos mostram Pretti com um celular na mão, sendo imobilizado, atingido por spray de pimenta e tendo a arma retirada de seu corpo antes de uma sequência de disparos. A discrepância entre discurso oficial e evidências visuais provocou indignação nacional e passou a minar a credibilidade do governo.

“Estou profundamente preocupado com os tiroteios em Minneapolis envolvendo agentes federais. Nossa Constituição protege os cidadãos contra o abuso do Estado”, afirmou o senador republicano Jerry Moran, rompendo o silêncio de parte do partido.

Dentro da Casa Branca, o desconforto foi imediato. Um assessor reconheceu que Trump percebeu rapidamente o estrago político. “Ele sempre foi muito bom em ler a percepção pública. E entende que isso foi mal conduzido”, disse.

Apesar disso, o presidente insistiu em dobrar a aposta nas redes sociais, classificando Pretti como um “homem armado”, com arma “carregada e pronta para uso”. Ainda assim, aliados admitem que a morte do enfermeiro marcou um ponto de inflexão.

“Nossos apoiadores continuam defendendo o endurecimento”, disse uma fonte próxima ao governo. “Mas ficou claro que este fim de semana mudou alguma coisa.”

Mais de 3 mil agentes foram enviados a Minneapolis, superando em quase cinco vezes o efetivo da polícia local. A lógica de ocupação militarizada passou a gerar cenas difíceis de justificar. “Você vê dezenas de agentes para prender uma pessoa. A multidão reage, o clima esquenta, surge gás lacrimogêneo. E a pergunta vira: o que estamos fazendo?”, relatou um aliado de Trump.

O presidente já vinha demonstrando irritação com a cobertura da imprensa sobre o ICE em Minnesota. Em publicação anterior, reclamou do “excesso de atenção da mídia”. Em uma coletiva rara, chegou a ironizar que talvez tivesse uma equipe ruim de comunicação.

Na segunda-feira, Trump anunciou o envio de Tom Homan, conhecido como “czar da fronteira”, para assumir o comando das ações em Minneapolis. Ele substitui Greg Bovino, que se tornou o rosto da operação mais agressiva e deve deixar a cidade nesta terça-feira. A expectativa é de redução do número de agentes, embora o governo evite detalhar os números.

Durante coletiva, a porta-voz Karoline Leavitt tentou conter danos, afastando Trump da retórica de seus auxiliares. Questionada sobre o rótulo de “terrorista doméstico”, afirmou que o presidente prefere aguardar investigações.

A escolha de Homan também é interpretada como um esvaziamento político de Kristi Noem, já que o czar da fronteira não responde diretamente a ela. “É difícil não ver isso como um recado”, afirmou uma fonte envolvida na decisão. “A Casa Branca não gostou do que viu — nem nas ruas, nem na TV.”