
O colapso do Banco Master, que se espalhou para o BRB e o Will Bank, expôs mais do que um fracasso empresarial isolado, segundo José Dirceu. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, ele aponta que esse é um sintoma de modelo financeiro construído sobre baixa regulação, opacidade e incentivos permanentes à imprudência.
Segundo o ex-ministro da Casa Civil, o episódio revela “as fragilidades de um sistema regulatório que falhou em sua missão básica: proteger investidores, preservar a estabilidade financeira e impedir a recorrente socialização dos prejuízos privados”.
Na avaliação do autor, a crise não é acidental nem imprevisível. Ela foi gestada em um ambiente institucional complacente, defendido pela Faria Lima e sustentado pela ideia de que o mercado se autorregula.
Esse arranjo, afirma, criou a ficção de que produtos de alto risco podem ser vendidos como investimentos “seguros”, apoiados no uso distorcido do FGC e no silêncio de agentes que “sabiam —ou tinham todas as condições técnicas para saber— dos riscos envolvidos”.

Leia trechos:
O caso Master —inicialmente associado ao BRB (Banco de Brasília), agora também ao Will Bank, igualmente liquidado, e ao sistema financeiro como um todo— parece longe de representar um acidente de percurso, um episódio isolado de má gestão ou um desvio pontual.
É produto direto de uma arquitetura do sistema financeiro alicerçada em baixa regulação, alta opacidade e incentivos permanentes à irresponsabilidade. Revela, de forma contundente, as fragilidades de um sistema regulatório que falhou em sua missão básica: proteger investidores, preservar a estabilidade financeira e impedir a recorrente socialização dos prejuízos privados.
De um lado, está a flexibilização imprudente e ideologicamente orientada promovida durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, marcada por uma visão dogmática de mercado autorregulado e pela redução deliberada da supervisão substantiva. De outro, o progressivo esvaziamento da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que perdeu capacidade operacional, autonomia política e instrumentos eficazes para cumprir seu papel fiscalizador em um mercado cada vez mais complexo, concentrado e financeirizado.
Em ambos os casos, trata-se de um modelo defendido, articulado e protegido pela Faria Lima, por seus porta-vozes no mercado, na mídia e, infelizmente, em parcelas do próprio Estado.
(…) Auditores, plataformas, entidades autorreguladoras e agentes financeiros sabiam —ou tinham todas as condições técnicas para saber— dos riscos envolvidos. Preferiram calar-se. Não foi uma falha técnica, mas uma escolha política e econômica. Um silêncio que se mostrou funcional a um modelo de negócios lucrativo para poucos e perigoso para muitos.
O Banco Central, sobretudo sob a gestão de Roberto Campos Neto, quando o risco se consolidou, não pode se eximir dessa responsabilidade. Ao priorizar uma leitura estreita de estabilidade monetária e indicadores formais de solvência, negligenciou os riscos sistêmicos que se acumulavam fora de seu radar convencional. Adotou uma postura excessivamente tolerante com estruturas financeiras complexas, operações cruzadas e modelos agressivos de captação, confiando mais na suposta disciplina de mercado do que na supervisão efetiva.
(…) É nesse contexto que o país precisa de uma reforma profunda do FGC. O fundo não pode continuar funcionando como incentivo perverso à tomada excessiva de risco. Sua governança deve ser revista, com contribuições proporcionais ao risco assumido, limites mais rigorosos por instituição e a proibição explícita de seu uso como instrumento de marketing. O fundo não pode seguir como fiador silencioso da irresponsabilidade privada.
(…) O caso Master-BRB-Will deve ser tratado como um ponto de inflexão. A financeirização descontrolada da economia brasileira não fortaleceu o desenvolvimento nacional, não ampliou o crédito produtivo nem democratizou o acesso à riqueza. Ao contrário, criou bolhas, fragilizou instituições e aprofundou desigualdades.
Não haverá estabilidade financeira, crescimento sustentável ou democracia econômica sem um Estado regulador forte, integrado e disposto a enfrentar interesses poderosos. Recolocar o sistema financeiro a serviço do desenvolvimento nacional é uma tarefa política inadiável.