A falta que faz um “Xandão” nos EUA. Por Miguel do Rosario

Atualizado em 27 de janeiro de 2026 às 19:34
Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Fellipe Sampaio/STF

 

Nada disso estaria acontecendo se os Estados Unidos tivessem hoje um sistema judicial minimamente independente, capaz de conter os abusos e arbítrios de Donald Trump.

O mundo inteiro acompanha, perplexo, a violência desencadeada pelo governo Trump contra os cidadãos de Minneapolis, uma cidade historicamente tranquila, conhecida por seus baixos índices de violência, pela cordialidade de seus moradores e pelo respeito com que trata seus imigrantes. Talvez exatamente por isso Trump tenha pouquíssimos votos ali.

Nas eleições presidenciais de novembro de 2024, Trump obteve apenas 27% dos votos em Minneapolis, contra quase 70% para o Partido Democrata. Minnesota é o estado com a mais longa sequência de vitórias democratas no país: não vota em um republicano para presidente desde Richard Nixon, em 1972.

Foi nessa cidade que a administração Trump lançou a “Operation Metro Surge”, descrita pelo Departamento de Segurança Interna como a maior operação de fiscalização migratória já realizada nos Estados Unidos. Mais de 3 mil agentes federais foram enviados à região, um contingente cinco vezes maior que todo o efetivo do Departamento de Polícia de Minneapolis.

Em menos de três semanas, dois cidadãos americanos foram mortos por agentes federais. Em 7 de janeiro de 2026, Renée Good, de 37 anos, poetisa, esposa e mãe, foi baleada na cabeça enquanto estava dentro de seu carro, observando uma operação da ICE em seu bairro. O agente responsável foi identificado como Jonathan Ross. O Departamento de Justiça recusou-se a abrir investigação de direitos civis, levando à renúncia de mais de uma dúzia de procuradores federais em protesto.

Em 24 de janeiro, Alex Pretti, também de 37 anos, enfermeiro de UTI do Departamento de Assuntos de Veteranos, filmava uma operação da ICE e ajudava pedestres a atravessar a rua quando foi abordado. Vídeos mostram que ele tentou proteger uma mulher empurrada ao chão por um agente. Pretti foi espancado por pelo menos seis agentes federais encapuzados e baleado múltiplas vezes enquanto estava no chão. O governo federal bloqueou investigadores estaduais de acessar a cena do crime.

Alex Pretti e Renne Good, dois cidadãos americanos mortos pelo ICE em Minneapolis. Fotomontagem

A reação da população de Minneapolis foi expressiva. Em 23 de janeiro, dezenas de milhares de pessoas marcharam sob temperaturas de 29 graus negativos, exigindo a saída da ICE. Mais de mil sindicatos apoiaram uma greve geral estadual. Setecentos estabelecimentos fecharam em solidariedade. Clérigos foram presos ao cantar hinos e rezar de joelhos no aeroporto. Professores relatam alunos apavorados, enviando mensagens durante as aulas: “A ICE está do lado de fora da minha casa neste momento.”

Se algo semelhante ocorresse no Brasil, o Supremo Tribunal Federal já teria agido. Um ministro da Corte teria expedido decisão monocrática imediata, seguida de confirmação do colegiado, suspendendo a atuação dos agentes da ICE em todo o estado de Minnesota.

Os assassinatos de Renée Good e Alex Pretti seriam investigados pelo FBI, com participação da polícia estadual, supervisão judicial federal e transparência pública. O julgamento dos responsáveis seria aberto e acompanhado pela sociedade.

Enquanto a extrema-direita tenta pintar o Brasil como uma “ditadura judicial”, fica claro o que realmente deseja: uma ditadura de maioria raivosa, sem limites institucionais, incapaz de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente, vota em outro partido ou nasceu em outro país.

Um dos aspectos mais infames da campanha trumpista contra imigrantes é a obsessão em negar qualquer atendimento de saúde a imigrantes, legais ou ilegais, adultos ou crianças, sob o argumento de custo ao contribuinte. Para o país mais rico do mundo, trata-se do abandono explícito de qualquer noção de humanismo.

Após a carnificina na Palestina, o governo Trump passou a tratar partes dos próprios Estados Unidos, especialmente áreas de hegemonia democrata, como uma espécie de Gaza doméstica, onde a vida humana perde valor e o Estado opressor atua sem limites.

Esse cenário também exige rever críticas apressadas ao Judiciário brasileiro. O sistema precisa ser testado, fiscalizado e criticado quando necessário. Ainda assim, os acontecimentos recentes mostram como a existência de um Judiciário forte é central para a democracia.

O mesmo vale para a Justiça Eleitoral brasileira. Trump age de forma semelhante a Jair Bolsonaro ao sustentar acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas, atacando o próprio processo democrático.

A lógica se repete nas tarifas e na política externa. Trump usa pretextos de emergência nacional para chantagear países, romper acordos e prejudicar a própria população americana. No Brasil, esse tipo de abuso do Executivo não seria permitido.

Um Judiciário independente também barraria aventuras ilegais e inconstitucionais, como as ameaças contra a Groenlândia ou o sequestro do presidente da Venezuela, precedido por bombardeios e mortes de integrantes da segurança de Nicolás Maduro. Em democracias funcionais, ações desse tipo seriam bloqueadas por magistrados independentes.

Por isso, é fundamental que o Brasil tenha um Judiciário que atue como Poder da República, oferecendo freios e contrapesos aos abusos do Executivo e do Legislativo. O país ainda precisa avançar em muitos aspectos, mas, em áreas institucionais essenciais, está à frente de democracias consideradas mais desenvolvidas.

Publicado originalmente no Cafezinho