
Há dois dias, a chamada mídia hegemônica repete, ad nauseam, que o presidente do STF, Edson Fachin, trabalha com a hipótese de retirar da Corte a condução do caso Banco Master. Nesta noite, O Globo avançou um passo além ao afirmar que o próprio Fachin teria dito que a “tendência” é o caso não permanecer no Supremo. A insistência não é casual nem inocente. Quando a repetição se converte em anúncio, já não se está diante de mera especulação jornalística, mas de um recado explícito. E o recado, convém dizer com sobriedade, é grave.
A discussão sobre o eventual deslocamento do processo para a primeira instância vem sendo apresentada ao público com uma naturalidade excessivamente curiosa, como se estivéssemos diante de uma simples escolha administrativa. No entanto, para quem acompanha minimamente a trajetória recente do Supremo, essa naturalização carrega um peso histórico danoso e um significado político que exige leitura mais atenta.
O presidente da Corte, Edson Fachin, evidentemente, não atua no vazio. Ele conhece o funcionamento dessa pressão organizada, que combina discurso moralizante, repetição midiática e defesa disciplinada, neste caso específico, dos interesses do Centrão. Um Centrão que, longe de ser uma abstração, tem motivos muito concretos para desejar o rebaixamento do processo. Fora do STF, o caso se aproxima de um ambiente mais manejável, menos exposto ao escrutínio colegiado e mais aberto à construção de narrativas seletivas. É nesse deslocamento que se cristaliza o doloroso “com Supremo, com tudo!”.

É preciso ter clareza de que o elo do Banco Master com o bolsonarismo constitui um dado estrutural neste processo de investigação. O Banco Master não surge como acidente de percurso, mas como peça funcional de um ecossistema político-financeiro que envolve políticos bolsonaristas, empresários alinhados ao bolsonarismo e a atuação direta de quadros ligados à Igreja da Lagoinha. Não é detalhe lateral que o banco tenha sido fundado por pastor bolsonarista da Igreja da Lagoinha, administrado por bolsonaristas da Igreja da Lagoinha e convertido em instrumento de atendimento às demandas de um bolsonarismo que jamais abandonou a combinação entre fé, finança e poder. O Banco Master vicejou sob o olhar complacente de um Banco Central bolsonarista, então presidido pelo bolsonarista Roberto Campos Neto. Repetir isso não é excesso retórico. É fidelidade aos fatos.
A primeira instância, como a experiência brasileira recente deixou claro, oferece um terreno mais flexível para esse tipo de operação. Ali, a combinação entre protagonismo judicial, pressão local e cobertura seletiva cria um ambiente propício à manipulação do processo e da opinião pública. O Supremo, com todos os seus limites, ainda impõe filtros institucionais que incomodam quem prefere agir nas sombras.
Essa dinâmica não é nova. O ministro Teori Zavascki, relator original da Lava Jato, foi cercado por uma força-tarefa que transformou prisões preventivas prolongadas em instrumento de convencimento. Teori, pressionado de forma contínua, acabou validando práticas que mais tarde se mostrariam incompatíveis com o sistema de garantias constitucionais. Sua resistência foi sendo progressivamente desgastada até se tornar, na prática, inexistente.
Com sua morte, Edson Fachin assumiu a relatoria e deu à Lava Jato um fôlego ainda maior. As homologações rápidas, a manutenção de prisões extensas e a legitimação institucional de métodos abusivos ampliaram o impacto político da operação. O combate à corrupção foi convertido em narrativa absoluta, pouco sensível a freios jurídicos. O resultado foi conhecido e custoso para o Estado de Direito.
Quando os abusos se tornaram evidentes, Fachin se viu isolado no Supremo. A anulação das condenações de Lula e o reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro marcaram não apenas uma inflexão jurisprudencial, mas também o declínio interno de uma visão de Justiça que se confundia com militância judicial. A derrota do lavajatismo deixou marcas, inclusive pessoais.
É nesse cenário que a possibilidade de deslocar o caso Banco Master ganha contornos ainda mais preocupantes. A decisão, se confirmada, não apenas atenderia à pressão midiática e aos interesses do Centrão, como abriria espaço para a reedição de um método que já demonstrou, de forma eloquente, seus efeitos destrutivos. Ao mesmo tempo, salvaria a pele de setores centrais do Congresso e ofereceria sobrevida política ao bolsonarismo, sempre pronto a se reorganizar quando identifica uma nova cruzada judicial a explorar.
O alvo é Lula. Foi Lula quando corruptos articularam a operação Lava Jato para atingir Lula. É Lula agora, no desejo recorrente de setores endinheirados de fabricar uma nova Lava Jato para atingir Lula outra vez. O alvo era Lula, o alvo continua sendo Lula. Tudo indica que, enquanto Lula estiver vivo e politicamente ativo, Lula seguirá sendo o alvo. Um novo segundo mandato de Lula permanece insuportavelmente doloroso para os interesses dos endinheirados.
Ao retirar o caso do Supremo, Edson Fachin não estará apenas tomando uma decisão processual. Estará sinalizando que a Corte pode voltar a ceder a um modelo de pressão que já custou caro ao país. E, desta vez, o beneficiário não será a Justiça, mas um arranjo que combina Centrão, bolsonarismo e religião instrumentalizada, todos confortavelmente protegidos longe do olhar colegiado do STF.
A ameaça, portanto, não é abstrata. Ela está posta, repetida, anunciada e cuidadosamente naturalizada. O que resta saber é se o Supremo aceitará, mais uma vez, fingir que não percebeu. Caberá aos ministros bloquear a tibieza de Fachin e não aceitar a pressão do Centrão, operacionalizada por meio da mídia.