O Master, Lula e a moral como armadilha. Por Edward Magro

Atualizado em 28 de janeiro de 2026 às 18:46
Entrada do Banco Master, em São Paulo. Foto: reprodução

Retomo o caso Master. Insisto. O noticiário recente sobre a liquidação do Banco Master vem sendo apresentado como um drama técnico, quase contábil, desses que supostamente dizem respeito apenas a especialistas e reguladores. Basta, porém, afastar a névoa do alarmismo cotidiano para perceber que o episódio está longe de se restringir ao universo bancário. Ele toca nervos políticos sensíveis, mobiliza interesses muito concretos e expõe uma disputa de poder que antecede, e em larga medida orienta, a próxima eleição presidencial.

Convém não perder o foco. O alvo é Lula. O Banco Master cumpre a função de pretexto, o triplex da vez.

Repito: o alvo é Lula. O Banco Master é pretexto, o triplex da ocasião.

Para que não reste dúvida, é preciso reiterar. O Banco Master nasce em 2018, no auge da ascensão bolsonarista, quando o pastor da Igreja da Lagoinha e militante bolsonarista Daniel Vorcaro adquire o Banco Máxima. Desde a origem, a instituição opera como suporte logístico de circuitos financeiros opacos, envolvendo políticos bolsonaristas, empresários habituais do poder e empresários da fé, igualmente alinhados. Relatórios preliminares da Polícia Federal descrevem uma engenharia financeira que inclui a relação com o Clava Forte Bank, banco da própria Igreja da Lagoinha, intermediada por Fabiano Campos Zettel, pastor da igreja e cunhado de Vorcaro. As cifras atribuídas ao rombo giram em torno de 18 bilhões de reais. Confirmadas as apurações, o país estará diante de um dos maiores crimes financeiros de sua história recente.

Apesar desse cenário relativamente claro, há uma dificuldade evidente no campo progressista, a chamada esquerda, em perceber o sentido do pânico cuidadosamente cultivado pela mídia hegemônica. O objetivo não é esclarecer fatos, proteger poupadores ou responsabilizar criminosos financeiros. O que se busca é deslocar a investigação para a primeira instância, esvaziando o peso institucional do Supremo Tribunal Federal e abrindo caminho para um processo conduzido por juízes de chão, mais vulneráveis à pressão política e midiática. A fórmula é conhecida. O devido processo legal é substituído pelo julgamento em tempo real nos telejornais. O tribunal jurisdicional cede lugar ao tribunal midiático. E, perplexa, parte da esquerda morde a isca, abraça um moralismo abstrato e ajuda a pavimentar um roteiro que já demonstrou, no passado recente, onde costuma terminar.

Esse comportamento não surge do nada. Sempre que o campo progressista se vê diante de uma questão apresentada como moral, o impulso interno fala mais alto. Qualquer desvio, por mínimo que seja, aciona um tribunal implacável, voltado mais para o apaziguamento da consciência do que para a disputa efetiva de poder. Na encruzilhada entre moral e pragmatismo político, o futuro costuma ser sacrificado em nome de uma pureza que tranquiliza o coração, mas desarma a estratégia. A direita, por sua vez, opera com outras variáveis. Ética e moral raramente entram no vocabulário. Mentir é método, saquear é costume, governar para o andar de cima é regra. Não há dilema porque o fascismo prescinde dele. Trata-se de uma prática amoral, funcional aos interesses das elites.

Lula, presidente do Brasil. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

A experiência estadunidense obrigou o campo progressista daquele país a estudar esse fenômeno com mais cuidado. Em 2017, Ian Danskin lançou a série Alt-Right Playbook, um esforço notável para dissecar as estratégias retóricas da extrema direita. O mérito do trabalho está em mostrar como a manipulação discursiva, o desvio de foco e a normalização do absurdo são usados para capturar o debate público e impor agendas regressivas sem confronto direto com os fatos.

Um dos eixos mais reveladores dessa análise é o conceito da chamada armadilha ética. A extrema direita aprende a instrumentalizar justamente os valores universais caros à esquerda — justiça, igualdade, tolerância — convertendo-os em pontos de fragilidade. Exige do adversário uma coerência absoluta, mesmo quando ela implica desvantagem política concreta. Toda reação mais firme passa a ser enquadrada como hipocrisia; toda defesa institucional é apresentada como cumplicidade; e aquele que denuncia o embuste acaba carimbado como defensor de criminosos. Assim, a esquerda se vê compelida a explicar cada gesto, sempre na defensiva, enquanto a direita avança sem constrangimentos, manejando a ética alheia como ferramenta de desgaste contínuo.

No caso do Banco Master, essa dinâmica manifesta-se com claríssima clareza. Parte da militância oscila entre uma defesa genérica do STF como pilar da ordem democrática e críticas fragmentadas a ministros, baseadas em alegados conflitos de interesse. O efeito é a produção de uma narrativa difusa, facilmente explorável pelos adversários e fértil para a semeadura do próximo movimento estratégico da mídia. Em lugar de conduzir o debate para temas substantivos — captura institucional, financiamento político e crimes financeiros de grande escala — dissipa-se energia em disputas internas em torno de uma ideia abstrata de pureza moral. A armadilha é eficaz porque imobiliza. E essa imobilização cria, ou ao menos favorece, a pressão para que o processo seja deslocado para a primeira instância.

Aqui convém abandonar qualquer ingenuidade. A mídia hegemônica não dedica semanas a vasculhar relações familiares de ministros por súbito zelo ético. Esses valores nunca frequentam as salas de reunião de seus proprietários. Alguém leu um editorial indignado diante do sequestro do presidente de um país latino-americano pelo governo estadunidense? Onde se leu uma mínima denúncia da sistemática pirataria contra petroleiros que transportavam óleo venezuelano? Onde está escrita uma única linha sobre o holocausto do povo palestino e a denúncia do genocida Netanyahu e de seu governo nazissionista, ou sobre o plano do presidente Trump de expulsar palestinos de Gaza para transformá-la em resort para endinheirados? Onde se encontra um pequeno texto, ainda que escondido, de autocrítica pela prisão de Lula conduzida por um juiz que corroeu a legalidade institucional? O silêncio foi absoluto. O silêncio midiático é sempre absoluto quando se trata de crimes dos seus.

O foco atual tem outro propósito. Criar pânico institucional suficiente para afastar o caso Master do STF e entregá-lo a um destino de corte sergiomorista. Recriar, com novos personagens, a lógica da Lava Jato, na qual o processo jurídico é atropelado pelo espetáculo midiático. Todo o resto funciona como cortina de fumaça, um jogo de distração para ocultar o movimento central.

A história recente deveria servir de antídoto. O golpe contra Dilma Rousseff não foi improviso. Foi uma construção paciente, em etapas bem calculadas. Primeiro a derrubada da presidenta. Depois a prisão de Lula. Por fim, a eleição de Bolsonaro. A lição foi cara, mas clara. Questões envolvendo eventuais irregularidades de ministros, se sustentadas por indícios consistentes, devem seguir o rito institucional adequado, no tempo político correto, com atuação da PGR e respeito às garantias legais. Antecipar esse debate nos termos ditados pela mídia significa jogar no campo do adversário.

A saída para o dilema que atravessa a esquerda brasileira é menos moral do que estratégica. Ou se reconhece a armadilha e se recusa a operar segundo os interesses dos endinheirados que apostam em uma nova cruzada moral seletiva, ou o país será novamente entregue à extrema direita, com seu legado conhecido de extermínio dos pobres e saque dos cofres públicos. Para quem não suporta a perspectiva de mais quatro anos de Lula na Presidência, qualquer confusão é funcional.

Preservar a democracia, neste contexto, exige lucidez. E a lucidez, hoje, cobra uma virtude rara e pouco espetacular: paciência corajosa — ou, se se preferir, coragem paciente.