
Em editorial publicado nesta quinta-feira (29), o Estadão reconhece que houve leniência do Banco Central no acompanhamento do Banco Master, mas passa pano para o bolsonarista Roberto Campos Neto ao poupar o ex-presidente da autarquia de responsabilização direta, apesar dos sucessivos alertas ignorados, prazos estendidos e falhas de supervisão que permitiram que o escândalo ganhasse grandes proporções antes da liquidação da instituição comandada por Daniel Vorcaro. Confira:
A esta altura, não há ninguém no País, exceto pela equipe de advogados do empresário Daniel Vorcaro, capaz de afirmar que a liquidação do Banco Master foi uma decisão precipitada. Revelações trazidas pela imprensa com frequência diária mostram, de um lado, uma instituição financeira que se utilizou de um modelo de negócios insustentável para crescer vertiginosamente em um curto espaço de tempo e, de outro, uma extensa rede de contatos em Brasília que atuou para impedir seu colapso e a ruína de seu dono.
São pertinentes, portanto, as dúvidas sobre se o Banco Central (BC), sobretudo na gestão de Roberto Campos Neto, não teria demorado demais para agir e fechar a instituição financeira. Afinal, como mostrou recente reportagem do Estadão, o BC estava ciente dos problemas de liquidez do Master mais de um ano antes de fechá-lo e seguiu dando oportunidades para que a instituição se ajustasse enquanto o Master mantinha uma gestão escancaradamente temerária. (…)
Em novembro de 2024, o Master deixou de recolher depósitos compulsórios, ou seja, começou a dar calote no próprio Banco Central. Ainda assim, Campos Neto, que deixaria o cargo no fim do mês seguinte, deu novo prazo, até março de 2025, para que o banco encontrasse uma solução definitiva.
É provável que Vorcaro tenha explorado ao máximo brechas de regulação aproveitando-se do fato de que Campos Neto era favorável à ampliação da concorrência no setor financeiro. E é bem possível que o BC tenha acreditado até o fim em uma solução de mercado para o Master, que só ficou claro que não viria quando o BRB, banco estatal do Distrito Federal, surgiu em seu socorro. Felizmente, a proposta de compra acabou por ser vetada pelo BC em setembro, dois meses antes da liquidação da instituição.
A sucessão de fatos, contada de maneira cronológica, sugere que houve certa leniência do BC com o banco de Vorcaro, que deu mostras de ser muito pouco confiável ao longo dos anos. A liquidação de um banco, no entanto, é uma medida extrema, da qual não há volta. (…)
Por outro lado, se o Banco Central tivesse sido mais rígido com o Master desde o início, o escândalo não teria chegado ao nível que chegou nem envolvido autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Fica a lição de que qualquer mercado precisa ser acompanhado com lupa pelos órgãos reguladores desde o nascedouro, para evitar que problemas normais se tornem crises – ou escândalos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/l/r/B0yJ1tT1SSyIklYhiwDQ/112235390-eco-sao-paulo-sp-05-09-2025-fachada-do-predio-do-banco-master-itaim-bibi-mar.jpg)