Israel admite pela 1ª vez 71 mil mortos em Gaza . Ou seja, o número real é muito maior

Atualizado em 29 de janeiro de 2026 às 16:14
Mulher carrega seu filho nos escombros de Gaza

Autoridades militares israelenses passaram a aceitar os dados do Ministério da Saúde de Gaza, que contabiliza ao menos 71 667 mortos, mas reconhecem que há milhares de pessoas ainda soterradas sob escombros, vítimas de fome ou que morreram após a destruição completa do sistema hospitalar do território.

Segundo reportagem do jornal Haaretz, fontes militares confirmaram que os números divulgados pelas autoridades palestinas são considerados confiáveis, posição alinhada à de organismos internacionais como a ONU. A admissão marca uma mudança relevante após anos de tentativas de deslegitimar as estatísticas de Gaza, classificadas por Israel como “imprecisas” ou “propaganda”.

Na prática, o reconhecimento vem quando o impacto humanitário já ultrapassou qualquer possibilidade de ocultação.

Pesquisas independentes já indicavam que os números oficiais subestimavam a dimensão da matança. Um estudo coordenado pelo professor Michael Spagat, da Universidade de Londres, apontou que o total de mortos poderia ultrapassar 75 mil ainda em janeiro de 2025, cerca de 40% acima dos dados registrados à época.

Outro levantamento, publicado pela revista científica The Lancet, chegou a conclusões semelhantes, destacando a impossibilidade de contabilizar mortes indiretas em um território devastado.

A estratégia israelense foi, desde o início, semear dúvidas sobre a escala da destruição enquanto o conflito estava em curso. A aceitação tardia dos números sugere que dezenas de milhares de mortes passaram a ser tratadas como um parâmetro “normal” das operações militares, e não como um limite ético ou político.

Integrantes da Defesa Civil dispõem sacos mortuários contendo os restos de membros da família Shahebar em Gaza

Mesmo após o cessar-fogo firmado em outubro, a violência não foi completamente interrompida. Profissionais de saúde relataram novas mortes em áreas como Khan Younis, onde tropas israelenses continuam operando. Paralelamente, Israel anunciou a reabertura condicionada da passagem de Rafah, principal ligação de Gaza com o Egito, enquanto estuda mecanismos para restringir o retorno de palestinos ao território.

O reconhecimento do número de mortos não altera o quadro central: a destruição sistemática de infraestrutura civil, o colapso dos serviços de saúde e a normalização da morte em larga escala. Admitir 70 mil mortos não encerra o debate, mas evidencia o quanto a tragédia já ultrapassou todos os limites.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.