
Por Leonardo Sakamoto
Quando um governo decide que o braço armado do Estado não serve mais à Constituição, mas ao ego e ao projeto de poder de quem senta na cadeira presidencial, o sinal de alerta não apenas acende, ele explode. O que estamos vendo nos Estados Unidos com o uso do ICE (a agência de imigração e alfândega) não é política pública, mas o uso da máquina pública como ferramenta de intimidação.
É, em bom português, a construção de uma milícia paramilitar com verniz oficial, respondendo à pergunta que abre este texto, tirado do título de duro editorial publicado hoje pela revista The Economist. Que pode ser acusada de muita coisa, menos de ser “comunista”.
O roteiro é mais velho que andar para frente, mas segue eficaz para quem despreza a democracia:
1) Cria-se um inimigo imaginário (o imigrante, o globalista, o terrorista doméstico);
2) Naturaliza-se a violência como o único remédio possível;
3) Garante-se o salvo-conduto para que os agentes do “serviço sujo”, ideologicamente selecionados, saibam que a lei não os alcançará.
Como bem aponta a revista, o ICE passou a operar sob o mantra da “imunidade absoluta” prometida por Donald Trump. Agentes incentivados à violência, buscas sem mandado e o cerceamento de quem ousa protestar. Isso não é controle de fronteiras. É um teste de estresse das instituições.

As execuções de Renee Good e de Alex Pretti são exemplos pedagógicos dessa engrenagem de moer gente. Primeiro o Estado executa, depois, a máquina de propaganda tenta transformar a vítima em vilão para justificar o sangue no chão. Quando um governo corre para controlar a apuração em vez de garantir a independência da investigação, a democracia já não está apenas doente, ela está no respirador.
Historicamente, autocratas sempre tiveram seus “estimados” grupos paramilitares: camisas-negras, SA, esquadrões que faziam o que as Forças Armadas oficiais ainda hesitavam em fazer. A lógica de Trump com o ICE é a mesma: criar uma tropa com lealdade pessoal, pronta para punir “cidades-santuário” e intimidar governadores e prefeitos rebeldes, além de qualquer cidadão que ouse questionar ou gravar as imagens da violência.
Há quem se apegue à ideia de que as instituições norte-americanas são sólidas demais para ruírem. Os protestos gigantes em Minneapolis, sob um frio de rachar, mostram que a sociedade civil respira. Mas o autoritarismo moderno é cupim: ele não derruba a casa de uma vez, ele come por dentro. Come quando agentes mascarados e sem identificação viram parte da paisagem urbana. Come quando a exceção vira a regra letal.
Ao transformar o ICE numa força paramilitar que age com autonomia, impunidade e fidelidade pessoal ao presidente, Trump aproxima os Estados Unidos do tipo de Estado que diz combater. Em países capturados pelo narcotráfico, milícias armadas surgem como solução para o caos que elas próprias aprofundam — ocupam territórios, intimidam comunidades, executam suspeitos, constroem narrativas de guerra permanente e se apresentam como última barreira contra o inimigo.
O resultado é sempre o mesmo: medo como método de governo e violência como linguagem política.
Quando Washington normaliza esse expediente, perde a autoridade moral para apontar o dedo para fora e passa a importar, para dentro, o modelo de barbárie que jura combater. A partir daí, a fronteira não é mais entre democracia e ditadura, mas entre quem manda com a lei e quem manda com a arma.
E o preço dessa escolha, como a história não cansa de nos esfregar na cara, costuma ser cobrado em vidas. Quase sempre das mesmas pessoas.
Publicado originalmente no UOL