
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
O presidente do PSD, Gilberto Kassab, é tido como um bom analista da conjuntura política – e o anúncio da filiação de Ronaldo Caiado neste momento comprova isso. Não pelas chances do governador de Goiás na disputa pela Presidência da República, que são baixas, mas porque o assunto monopolizou a política e a imprensa nos últimos dias. Com isso, Kassab conseguiu capturar a pauta, tirando o foco eleitoral tanto de Lula quanto do bolsonarismo.
A foto de Caiado sendo recebido nas fileiras do partido pelos governadores do Paraná, Ratinho Júnior, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, circulou e rendeu suspiros em alguns círculos. Ainda mais em uma imprensa coalhada de órfãos de uma terceira via na direita liberal, aguardando alguém que, como o Godot de Samuel Beckett, nunca vem.
Lula, o incumbente e montado na máquina pública, está no segundo turno. E pesquisas eleitorais vêm mostrando que os três governadores não devem ser páreos no primeiro turno para o senador Flávio Bolsonaro, que cavalga o sobrenome com a benção do pai.
“Ah, mas têm o mesmo desempenho de Flávio no segundo”, alguém pode retrucar. Claro, esta não é uma eleição, mas um referendo para saber se o petista continua ou não no cargo, então o voto é a favor de Lula ou contra. Mas os governadores não chegam ao segundo turno porque a direita bolsonarista, numerosa, vai com o clã no primeiro.
Quando questionei Kassab, em entrevista ao UOL News, se ele apoiaria uma candidatura do governador Tarcísio de Freitas, caso Flávio Bolsonaro desista da corrida, ele indicou que não veria problema em recuar no projeto do PSD diante de “uma candidatura forte, que una tudo”. Mas disse acreditar que o partido vai com um dos três, em uma decisão que deve ser tomada em abril. O que acontece no dia 4 do mês 4? O prazo final para os governadores renunciarem a seus cargos a fim de concorrerem à Presidência. Caiado, Ratinho, Leite… ou Tarcísio.
O fato é que Kassab apresentou três pré-candidatos juntos, causando burburinho na imprensa, sendo que nenhum deles está perto de ser favorito para passar ao segundo turno. E fez isso em um momento em que Lula divide a atenção com demandas presidenciais de relações internacionais e Bolsonaro está preso, com a família quase isolada — se não fosse, veja só, Tarcísio, que visitou o ex-presidente para ouvir dele uma cobrança de que ajude Flávio.
Ressalte-se que o próprio Kassab respondeu a Josias de Souza, na entrevista ao UOL, que é fundamental que Tarcísio tenha sua “identidade”. E completou: “uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade; outra coisa é submissão”.
Ainda não se sabe qual o jogo que o presidente do PSD e seus candidatos vão desempenhar na eleição, além, é claro, da tentativa de voltar a ser o maior partido do Senado — posição tomada pelo PL — e de sonhar com o topo da Câmara. Mas, neste momento pré-eleitoral, ele acabou conseguindo um espaço que ninguém mais conseguia.
Kassab pode não estar lançando um nome para ganhar a Presidência, mas um movimento para ganhar tempo, espaço e poder de barganha. Num cenário polarizado, em que a eleição tende a ser decidida mais por rejeições do que por projetos, ele ocupou o vazio deixado por uma direita que não consegue se descolar do bolsonarismo nem apresentar algo realmente novo. Pode não haver um candidato viável ali, mas há algo talvez ainda mais valioso: a capacidade de pautar, forçar conversas e se colocar como fiel da balança quando o jogo apertar.
Num tabuleiro em que poucos mexem as peças, Kassab mexeu. E, por ora, isso já foi suficiente para vencer a rodada.