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Sob o governo de Donald Trump, quase 4 mil menores foram presos em 2025 durante ações anti-imigração conduzidas dentro dos Estados Unidos. Dados compilados pelo Deportation Data Project indicam que cerca de 3,8 mil crianças e adolescentes foram colocados em centros de detenção familiar entre janeiro e outubro deste ano, incluindo bebês de um ou dois anos.
Desse total, mais de 2,6 mil menores foram apreendidos por agentes do Serviço de Imigração e Fronteiras (ICE) já em território americano, e não na fronteira. A mudança de padrão ocorre em um contexto de travessias ilegais em níveis considerados baixos e aponta para uma estratégia focada em famílias que já vivem no país.
Caso de menino equatoriano expõe método
Há quase dez dias, Liam Ramos, um menino equatoriano de 5 anos, voltava da escola com o pai, Adrián, quando agentes do ICE o retiraram de um carro em movimento em Columbia Heights, subúrbio de Minneapolis. Segundo o distrito escolar local, a intenção dos agentes era que a criança batesse à porta de casa e servisse de “isca” para a detenção de outras pessoas no imóvel.
Durante a ação, um adulto que estava na residência se ofereceu para cuidar do menino, mas o pedido foi recusado. Pai e filho foram levados para um centro de detenção familiar em Dilley, no Texas, a mais de 2 mil quilômetros de distância.
Imagens de Liam, usando um chapéu azul e uma mochila do Homem-Aranha, com expressão de medo, circularam globalmente. O episódio, segundo dados oficiais, não é isolado.
Detenção familiar muda de perfil
Em governos anteriores, incluindo o primeiro mandato de Trump, entre 2017 e 2021, a detenção familiar era usada principalmente contra pais e filhos que cruzavam juntos a fronteira por terra. Naquela fase, adultos eram processados criminalmente por entrada ilegal, enquanto os filhos eram separados e colocados sob custódia.
A política gerou indignação internacional após registros de crianças sendo retiradas à força dos pais. Anos depois, autoridades da própria administração admitiram ao New York Times que o impacto emocional era parte da estratégia para desencorajar a imigração irregular. Sob pressão, Trump encerrou a prática em 2018.
Durante o governo Joe Biden (2021–2025), um acordo judicial proibiu separações familiares na fronteira, com exceções restritas, como situações de risco para as crianças.
Agora, segundo especialistas, a separação familiar volta a ser utilizada, em alguns casos, como instrumento para pressionar famílias a deixar o país, mesmo sem tentativas recentes de travessia ilegal.
Denúncias de violações de direitos
Menores sob custódia do ICE têm proteções específicas previstas no Acordo Flores, de 1997. Pelas regras, crianças desacompanhadas não devem ser detidas pelo órgão, e menores acompanhados podem permanecer em centros familiares com acesso à educação e a áreas de recreação. Ainda assim, o acordo prevê liberação caso a deportação não ocorra rapidamente.
Relatos recentes de advogados e organizações de direitos humanos, porém, indicam que crianças têm sido mantidas em celas sem janelas, privadas de atendimento médico adequado e separadas de pais ou responsáveis por longos períodos.
Segundo a ONU, entre janeiro e agosto de 2025, o tempo médio de custódia de menores aumentou de cerca de um mês para seis meses. No mesmo período, as liberações para familiares responsáveis caíram de aproximadamente 95% para 45%.
“Há relatos consistentes de deportações ilegais de menores desacompanhados, em violação à obrigação de não devolução, inclusive de crianças e adolescentes vítimas de tráfico ou em risco de tráfico de pessoas”, afirmaram três relatores especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
As denúncias também apontam que crianças têm sido pressionadas a aceitar US$ 2,5 mil para se autodeportar, abrindo mão das garantias legais, ou a enfrentar detenção prolongada e transferência automática para a custódia do ICE ao completarem 18 anos.
Corte de assistência jurídica e ações judiciais
Pela Lei de Reautorização da Proteção às Vítimas de Tráfico de Pessoas de 2008 (TVPRA), cabe ao Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR) cuidar de crianças desacompanhadas. A norma garante proteção contra maus-tratos, acesso a advogados e impede deportações aceleradas.
Em fevereiro, porém, o Departamento do Interior dos EUA ordenou a suspensão das atividades de organizações sem fins lucrativos que prestavam assistência jurídica a esses menores e cortou o financiamento de advogados. A medida atingiu cerca de 26 mil crianças.
Ações judiciais contestam a decisão, mas, segundo a ONU, muitos dos menores afetados seguem sem representação legal e sob risco de remoção forçada, apesar de serem elegíveis à proteção.
Centros de detenção e críticas recorrentes
Em agosto, uma juíza federal rejeitou uma nova tentativa do governo Trump de encerrar o Acordo Flores. A administração argumenta que o acordo incentiva travessias ilegais e dificulta a deportação de famílias.
Em 2019, o próprio governo já havia sustentado que não era obrigado a fornecer itens básicos, como sabão e escovas de dente, a crianças detidas — argumento que chocou magistrados. Na atual administração, especialistas relatam aumento de denúncias sobre condições em centros familiares.
Ao El País, Leecia Welch, diretora-adjunta da organização Children’s Rights, afirmou que crianças têm “sofrido pesadelos, perda de apetite e deterioração da saúde”.
“Elas têm pouco o que fazer e os brinquedos são escassos”, disse. “[Esses menores] estão com fome, são privados de sono, entediados e desesperados. As mães precisam implorar por fraldas, ver seus filhos perderem peso e se deteriorar por causa do estresse, e arcar com grande parte da responsabilidade de criá-los sozinhas, já que os pais são separados à noite e durante boa parte do dia.”
Protesto em centro de detenção
Na segunda-feira, o juiz federal Fred Biery suspendeu temporariamente as deportações de Liam e Adrián. No sábado, enquanto Minneapolis ainda lidava com a morte a tiros do enfermeiro Alex Pretti por agentes de imigração, o caso do menino provocou um protesto dentro do Centro Residencial Familiar de Dilley.
Segundo o advogado de imigração Eric Lee, detidos gritavam “liberdade” durante a manifestação. O centro, o maior do país, foi construído em 2014 com capacidade para 2,4 mil pessoas, fechado em 2024 no governo Biden e reaberto em março de 2025 após contrato entre o ICE, a empresa privada CoreCivic e a cidade de Dilley, válido até 2030.
Lee descreveu as condições como “deploráveis”: “É um lugar horrível. A água potável é fétida e muitas vezes imprópria para consumo, e as refeições já continham insetos, sujeira e detritos. Os guardas são tão severos quanto os de instalações para adultos. Este não é um lugar onde você deixaria seu filho nem por 15 minutos.”
