Brasileiros estão confinados escondidos do ICE em Minnesota: “Ficamos trancados”

Atualizado em 31 de janeiro de 2026 às 21:11
Agentes federais cercam e abordam uma mulher para perguntar sobre o paradeiro de outra pessoa, na segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, no sul de Minneapolis. (Foto: Nicole Neri/Minnesota Reformer)

Brasileiros que vivem em Minnesota descrevem um cotidiano marcado por medo e reclusão diante da atuação ostensiva do ICE. “A gente passou a entender que qualquer saída podia virar uma abordagem”, relata André em entrevista à Folha de S. Paulo, nome fictício usado por um trabalhador da construção civil que vive na região de Minneapolis. “Foram 29 dias praticamente trancados dentro de casa.”

Segundo ele, o temor não surgiu de boatos, mas da observação direta do que ocorria ao redor. “A gente via carros parados por horas na frente dos prédios. No WhatsApp, toda hora chegava mensagem de alguém conhecido que tinha sido pego”, conta. “Quando você vê gente da mesma cidade que a sua sendo levada, você entende que precisa se resguardar.”

Sem status migratório regular e com inglês limitado, André diz que a decisão de não sair de casa foi uma estratégia de sobrevivência. “Na rua, eu sei que eles estão pegando e vão me pegar. Em casa, eu tenho certeza de que eles não vão arrebentar minha porta”, afirmou. Durante esse período, ele e a família dependeram de amigos documentados para levar comida. “O dinheiro acabou, o último cheque foi para o aluguel. Agora não tem mais como ficar.”

Protesto de crianças contra o ICE em escolas nos EUA. Foto: Charly Triballeau/AFP

O medo também atingiu brasileiros com situação regularizada. Katia Mitchell, de 53 anos, cidadã americana há quase três décadas, afirma que mudou hábitos básicos. “No começo, eu achava que estava imune. Trabalhei aqui desde 1998, paguei impostos. Hoje, eu tenho medo”, diz. “Só saio com passaporte e outros documentos, para ter provas se me pararem.”

Moradora da região metropolitana de Minneapolis, Katia afirma evitar locais onde percebe maior presença de agentes. “Você abre a boca e eles já sabem que você não é daqui”, relata, ao citar o sotaque como fator de insegurança. “Mesmo estando legal, a sensação é de que ninguém está realmente protegido.”

O clima de tensão impulsionou redes de solidariedade. Katia passou a ajudar famílias brasileiras e hispânicas que não conseguem sair de casa. “Eu aviso quando estou chegando, peço para não abrirem a porta antes”, explica. “Na primeira entrega, vi crianças na janela com os direitos escritos nas mãozinhas. Eu comecei a chorar.”

Após quase um mês isolado, André decidiu voltar às ruas. Falou com a reportagem enquanto caminhava, algo que não fazia havia semanas. Ao chegar novamente ao apartamento, resumiu o sentimento que hoje domina parte da comunidade brasileira no estado: “Cheguei em casa, graças a Deus.”