
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado responsável por medidas de memória, verdade e reparação das vítimas da ditadura civil-militar brasileira, emitiu uma carta aberta contra a Rede Globo de Televisão denunciando que o programa Big Brother Brasil 2026 está utilizando dinâmicas que guardam semelhança com práticas de tortura empregadas sistematicamente durante o regime militar.
A denúncia foi formalizada através de ofício enviado à diretora de conteúdo da TV Globo, Leonora Bardini, e assinado por cinco membros da CEMDP, incluindo a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga, que preside a comissão.
O “Quarto Branco” e as Acusações
O foco principal da crítica é a dinâmica denominada “Quarto Branco”, que segundo a carta, submete os participantes a condições extremas que violam direitos fundamentais. A CEMDP descreve as práticas utilizadas:
“Ao utilizar dinâmicas que submetem corpos e mentes a condições extremas — privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção de tempo e posições físicas impossíveis de serem sustentadas por longos períodos — a emissora não apenas testa os limites de seus participantes, mas também os limites da nossa própria humanidade.”
O documento relata um incidente específico ocorrido na madrugada de 18 de janeiro de 2026, quando uma participante desmaiu após mais de 100 horas de reclusão no quarto branco. Conforme a carta:
“Na madrugada do último dia 18 de janeiro, umas das participantes chegou a desmaiar, após mais de 100 (cem) horas de reclusão no aludido quarto e depois de ser obrigada a permanecer em pé em uma espécie de pedestal com ínfimo diâmetro, prática utilizada como tortura durante as ditaduras latino-americanas.”
Paralelo com a Ditadura Militar
A CEMDP estabelece uma conexão explícita entre as práticas utilizadas no BBB e os métodos de tortura empregados durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). A carta afirma que tais dinâmicas guardam “uma semelhança aterradora com as práticas de tortura empregadas sistematicamente pela ditadura civil-militar brasileira”.
Os métodos descritos — privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial e posições físicas extremas — são técnicas clássicas de tortura psicológica e física documentadas em processos de direitos humanos em toda a América Latina.
Argumento Constitucional
A CEMDP rebate o argumento de que o consentimento dos participantes validaria tais práticas. Segundo a carta:
“Não podemos aceitar o argumento de que o ‘consentimento’ dos participantes ou a ‘busca pelo prêmio’ validem tais práticas. A nossa Constituição Federal, no seu Artigo 5º, é clara: a proibição da tortura e do tratamento degradante é um valor absoluto.”
A comissão também invoca o Artigo 221 da Constituição Federal, que estabelece que as concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando “os valores éticos e sociais da pessoa e da família”. A carta argumenta que a TV Globo falha em seu dever social ao transformar sofrimento em espetáculo.
Pausa no pão e no circo para uma reflexãozinha aqui.
Num futuro não muito distante, a sociedade vai olhar para o #BBB com a mesma perplexidade que, hoje, olhamos para quadros da TV dos anos 80 ou 90, como “O Mais Belo Negro do Brasil” do Chacrinha, o “Sushi Erótico” do Faustão… pic.twitter.com/nUiQKTNAcE
— Antonio Tabet (@antoniotabet) January 15, 2026
Transmissão Transgeracional de Trauma
Um dos argumentos mais profundos apresentados pela CEMDP refere-se à transmissão transgeracional de trauma. A comissão cita estudos da psicologia e sociologia que demonstram que traumas não resolvidos tendem a ser transmitidos aos descendentes. A carta afirma:
“Na psicologia e na sociologia, constata-se que o trauma não resolvido tende a ser transmitido aos descendentes, seja pelo comportamento, pela cultura ou pela negligência institucional.”
Dessa forma, ao reproduzir práticas de tortura em um programa de entretenimento assistido por milhões de pessoas, a emissora estaria contribuindo para a dessensibilização da população diante da violência e para a perpetuação de traumas coletivos.
A CEMDP foi instituída pela Lei 9.140/95 e funciona como órgão de Estado sob a supervisão do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A comissão é responsável por investigar, documentar e reparar violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar brasileira.
O envio da carta aberta representa uma ação institucional significativa, indicando que órgãos de Estado estão preocupados com a banalização de práticas de tortura em programas de entretenimento de grande audiência. Foi encaminhada diretamente à Rede Globo de Televisão.
A comissão solicita que a emissora considere seriamente a possibilidade de rever a utilização das práticas descritas e que a sociedade brasileira seja chamada a refletir sobre sua adesão a essa forma de entretenimento.