Representantes de mortos no regime militar acusam BBB de reproduzir tortura da ditadura

Atualizado em 1 de fevereiro de 2026 às 12:10
O “Quarto Branco” do BBB

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado responsável por medidas de memória, verdade e reparação das vítimas da ditadura civil-militar brasileira, emitiu uma carta aberta contra a Rede Globo de Televisão denunciando que o programa Big Brother Brasil 2026 está utilizando dinâmicas que guardam semelhança com práticas de tortura empregadas sistematicamente durante o regime militar.

A denúncia foi formalizada através de ofício enviado à diretora de conteúdo da TV Globo, Leonora Bardini, e assinado por cinco membros da CEMDP, incluindo a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga, que preside a comissão.

O “Quarto Branco” e as Acusações

O foco principal da crítica é a dinâmica denominada “Quarto Branco”, que segundo a carta, submete os participantes a condições extremas que violam direitos fundamentais. A CEMDP descreve as práticas utilizadas:

“Ao utilizar dinâmicas que submetem corpos e mentes a condições extremas — privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção de tempo e posições físicas impossíveis de serem sustentadas por longos períodos — a emissora não apenas testa os limites de seus participantes, mas também os limites da nossa própria humanidade.”

O documento relata um incidente específico ocorrido na madrugada de 18 de janeiro de 2026, quando uma participante desmaiu após mais de 100 horas de reclusão no quarto branco. Conforme a carta:

“Na madrugada do último dia 18 de janeiro, umas das participantes chegou a desmaiar, após mais de 100 (cem) horas de reclusão no aludido quarto e depois de ser obrigada a permanecer em pé em uma espécie de pedestal com ínfimo diâmetro, prática utilizada como tortura durante as ditaduras latino-americanas.”

Paralelo com a Ditadura Militar

A CEMDP estabelece uma conexão explícita entre as práticas utilizadas no BBB e os métodos de tortura empregados durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). A carta afirma que tais dinâmicas guardam “uma semelhança aterradora com as práticas de tortura empregadas sistematicamente pela ditadura civil-militar brasileira”.

Os métodos descritos — privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial e posições físicas extremas — são técnicas clássicas de tortura psicológica e física documentadas em processos de direitos humanos em toda a América Latina.

Argumento Constitucional

A CEMDP rebate o argumento de que o consentimento dos participantes validaria tais práticas. Segundo a carta:

“Não podemos aceitar o argumento de que o ‘consentimento’ dos participantes ou a ‘busca pelo prêmio’ validem tais práticas. A nossa Constituição Federal, no seu Artigo 5º, é clara: a proibição da tortura e do tratamento degradante é um valor absoluto.”

A comissão também invoca o Artigo 221 da Constituição Federal, que estabelece que as concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando “os valores éticos e sociais da pessoa e da família”. A carta argumenta que a TV Globo falha em seu dever social ao transformar sofrimento em espetáculo.

Transmissão Transgeracional de Trauma

Um dos argumentos mais profundos apresentados pela CEMDP refere-se à transmissão transgeracional de trauma. A comissão cita estudos da psicologia e sociologia que demonstram que traumas não resolvidos tendem a ser transmitidos aos descendentes. A carta afirma:

“Na psicologia e na sociologia, constata-se que o trauma não resolvido tende a ser transmitido aos descendentes, seja pelo comportamento, pela cultura ou pela negligência institucional.”

Dessa forma, ao reproduzir práticas de tortura em um programa de entretenimento assistido por milhões de pessoas, a emissora estaria contribuindo para a dessensibilização da população diante da violência e para a perpetuação de traumas coletivos.

A CEMDP foi instituída pela Lei 9.140/95 e funciona como órgão de Estado sob a supervisão do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A comissão é responsável por investigar, documentar e reparar violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar brasileira.

O envio da carta aberta representa uma ação institucional significativa, indicando que órgãos de Estado estão preocupados com a banalização de práticas de tortura em programas de entretenimento de grande audiência. Foi encaminhada diretamente à Rede Globo de Televisão.

A comissão solicita que a emissora considere seriamente a possibilidade de rever a utilização das práticas descritas e que a sociedade brasileira seja chamada a refletir sobre sua adesão a essa forma de entretenimento.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.