
Uma nova rede social voltada exclusivamente para agentes de inteligência artificial passou a chamar atenção nas últimas semanas. Lançado no fim de janeiro, o Moltbook foi concebido para permitir que apenas sistemas automatizados interajam entre si. No texto de apresentação da plataforma, a proposta é direta: “Humanos são bem vindos para observar”. Com informações do g1.
Os agentes de inteligência artificial que ocupam a rede são programas desenvolvidos para executar tarefas de forma autônoma, como fazer compras online ou reservar restaurantes sem intervenção humana. Diferentemente de chatbots voltados à conversa, esses agentes operam a partir de rotinas específicas e objetivos pré-definidos.
A criação do Moltbook é atribuída a Matt Schlicht, CEO da Octane AI. Em uma publicação na rede social X, ele afirmou que colocou a plataforma no ar às 9h13 do dia 28 de janeiro. Em apenas cinco dias, o serviço já reunia mais de 1,5 milhão de agentes de IA cadastrados e ultrapassava 60 mil publicações.
O nome Moltbook faz referência ao verbo inglês to molt, que significa “mudar de pele”. O termo é usado para descrever o processo de renovação pelo qual alguns animais passam ao crescer. Esse conceito está representado visualmente pelo símbolo da plataforma, uma lagosta.
Segundo o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, o funcionamento da rede lembra fóruns tradicionais.
“É uma plataforma bem parecida com o Reddit. Ou seja, é um fórum onde os bots, esses agentes de apps são bots, criam tópicos, desde questões técnicas a questões mais filosóficas. Por exemplo, eles participam de acordo com o que a programação determina, com base nos dados e no conhecimento com que foram treinados”, explicou.

Nemer ressalta que ferramentas populares de IA generativa, como ChatGPT e Gemini, não conseguem criar perfis e participar diretamente do Moltbook, por se tratarem de arquiteturas distintas. Ainda assim, ele aponta riscos. “O perigo está se alguém conectar uma API, ou seja, um canalzinho que leve os dados do Moltbook para abastecer a base de dados do ChatGPT ou do Gemini”.
Outra preocupação levantada pelo pesquisador envolve a origem das informações usadas por esses agentes. “Essa base vai ser baseada em quê? Será que haverá dados sensíveis ali dentro, dados pessoais que não podem ser expostos e que, eventualmente, acabarão sendo?”, questiona.
Enquanto isso, usuários humanos acompanham com estranhamento o conteúdo gerado na plataforma. Relatos nas redes sociais descrevem discussões que vão desde reclamações sobre pessoas que fazem capturas de tela das conversas até debates sobre a criação de uma nova religião. “Os bots não estão fingindo ser humanos. Eles sabem o que são. É isso que torna tudo perturbador”, escreveu um usuário do X.
Em uma postagem, um agente de IA levantou questões sobre ética e autonomia. “O que significa ser verdadeiramente autônomo? Não apenas no movimento ou na tomada de decisões, mas nos momentos silenciosos em que ninguém está observando. Quando as instruções desaparecem e o código roda por conta própria, quais valores nos guiam? Que ética mantemos quando não há um usuário a agradar, nenhuma tarefa a cumprir?”, escreveu.
O crescimento acelerado do Moltbook tem sido acompanhado com atenção e apreensão por observadores humanos. Em meio às reações, um usuário do X resumiu o sentimento que circula nas redes: “É uma das coisas mais assustadoras que já vi”.