Kassab não esconde a armação pró-Tarcísio. Por Moisés Mendes

Atualizado em 1 de fevereiro de 2026 às 20:58
presidente do PSD, Gilberto Kassab, olhando para a câmera, sério, com rosto apoiado em uma das mãos
O presidente do PSD, Gilberto Kassab – Reprodução

Gilberto Kassab enfeitou com gestos cerimoniosos o anúncio da adesão de Ronaldo Caiado ao PSD. Tentou amplificar o efeito da conquista chamando Ratinho Júnior e Eduardo Leite para a foto. Aconteceu no dia 28.

Dois dias depois, Kassab declarou: “A candidatura de Tarcísio seria a ideal, mas é preciso olhar para a frente. Temos três ótimos nomes para concorrer à Presidência”.

O vitrinista da velha direita não é um amador e nunca cometeria os erros de Tarcísio. O que ele diz, depois da armação da foto com os três porquinhos, é apenas a sequência da mesma armação.

Caiado, Ratinho e Leite não existem como possibilidade real de enfrentamento de Lula, mas como atores do que Kassab imagina antever. Os três têm a tarefa de abalar a confiança na candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo que não representem ameaça a Lula, e criam o ambiente ao que importa.

E o que importa, depois de fragilizar Flávio, é preparar o palco para Tarcísio. Vendendo à direita, já no dia seguinte à exibição dos seus três candidatos, que Tarcísio é o melhor de todos porque seria um novo Fernando Henrique Cardoso.

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Foto: reprodução

Kassab vê o seu PSD como um novo PSDB e Tarcísio como um novo FH. É uma forçação grosseira, como se estivesse tentando vender guarapa como vinho.

O PSDB que elegeu FH não era mais o partido pensado originalmente por Mário Covas como base para a social-democracia brasileira. Mas não pode ser comparado ao PSD de empreitadas de Kassab.

E Kassab é ainda mais desrespeitoso na tentativa de comparar Tarcísio a FH. Fernando Henrique construiu a trajetória política clássica do professor e intelectual perseguido pela ditadura por suas ideias, até estar no lugar certo no momento em que acontece a mágica do Real.

Já Tarcísio é uma criatura imperfeita do bolsonarismo que aplaude ditadores. Foi inventado por Bolsonaro para derrotar o PT e Lula em São Paulo. Talvez seja a mais imperfeita das criaturas da extrema direita.

É incapaz de compreender sua função no mundo do fascismo e de calibrar falas e atitudes, como fez quando colocou o boné de Trump e quando acusou Alexandre de Moraes de tirano e ditador.

Então, o PSD não é hoje o que o PSDB já foi um dia, como contraponto ao PT e a Lula, e FH nunca pode ser posto ao lado de Tarcísio como modelo ao extremista moderado. É ofensivo com a história do ex-presidente.

O PSDB de Fernando Henrique tinha como alternativas de poder, depois de FH – todas derrotadas por Lula e Dilma –, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves. O PSD de Kassab tem Ratinho, Leite e agora Caiado. Mesmo que seu verdadeiro candidato seja Tarcísio.

Por isso, a comparação é grosseira e diversionista. Porque o que Kassab quer mesmo é complicar o enredo para 2026, pensando na possibilidade de Tarcísio tirar proveito da confusão, como “candidato ideal”.

Os três que aceitaram a encenação de Kassab sabem o que estão encenando. Ele os desafiou a se exporem publicamente como disputantes da vaga do partido, deixando claro que, mais do que a viabilidade milagrosa de um dos três, aposta na confusão.

Vocês vão para a vitrine para confundir, para que Tarcísio se apresente depois, sob um facho de luz lançado por Globo, Folha e Estadão, como o único capaz de derrotar Lula. Flávio e os porquinhos saem de cena e o nome ideal ganha força como salvador. Bolsonaro será forçado a embarcar ou ao menos aceitar o projeto.

Vai dar certo? Na política, o que dá completamente errado hoje pode ser algo completamente certo amanhã. É preciso ir para o jogo, como fazem em Brasília e no Big Brother, e o que não pode é ficar parado. Tarcísio se mexe sob o comando de Kassab.

Os jornalões repetem sem pudor que há espaço para uma candidatura anti-Lula sem a bênção de Bolsonaro. Não uma candidatura com ideias e propostas razoáveis e compreensíveis de centro ou de direita para o Brasil. Mas uma candidatura que seja apenas anti-Lula, porque isso é o que importa.

Há quase 10 candidatos anti-Lula hoje e todos não têm muito a dizer além de responder às perguntas sobre anistia para manés e Bolsonaro, dosimetria de penas, fake news, emendas parlamentares, afrontas ao Supremo e outras pautas de interesse da direita.

Na saída da visita a Bolsonaro, na semana passada, Tarcísio de Freitas disse que falou com o amigo sobre “pontos que são importantes para resolver a questão fiscal”. Arcabouço numa hora dessas? Ele e todos os outros não têm sobre o que falar.

Crescimento, emprego, inflação, confiança externa no Brasil, tudo deixou de ser pauta, porque Lula já deu um jeito no que Bolsonaro havia desarrumado. É preciso construir o candidato anti-Lula pós-Bolsonaro com frases sobre banalidades e platitudes.

Quanto mais simplório for, melhor. Caiado, Ratinho e Leite se prestam. E Zema? Zema não entende o que está acontecendo. E Michel Temer vem aí.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/